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		<pubDate>Mon, 15 Nov 2010 01:32:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Man Osti</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Bêbado. Bêbado. Alguns momentos atrás, a coloração do vômito harmonizava com as luzes pálidas e amareladas do centro da cidade em mais um final de fim de semana. Apenas o vômito &#8211; e não ele &#8211; havia percebido que Haydée havia chegado com as alças de paetê negro desalinhadas e com o salto Gautier nas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=362&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">Bêbado. Bêbado. Alguns momentos atrás, a coloração do vômito harmonizava com as luzes pálidas e amareladas do centro da cidade em mais um final de fim de semana. Apenas o vômito &#8211; e não ele &#8211; havia percebido que Haydée havia chegado com as alças de paetê negro desalinhadas e com o salto Gautier nas mãos. Bêbado filho da puta.</p>
<p style="text-align:justify;">Longas, finas e com pequenos hematomas na parte superior, as pernas de Haydée saltaram delicadamente por entre as nódoas que fediam horrivelmente e estacaram acima do corpo dele. As olheiras estavam mais profundas que antes, e o seu rosto, outrora um pouco mais bonito, estava com aquelas marcas diagonais que complementam as olheiras. Cansaço, exaustão. Fracasso. Abra os olhos, M., abra os olhos. Eu quero olhar para você assim como você precisa olhar para mim. Abra os olhos.</p>
<p style="text-align:justify;">Ele era só mais um. Deve ter sido isso que o machucou tanto.</p>
<p style="text-align:justify;">- Você acabou com as minhas anfetaminas. Eu deveria te espancar por causa disso.</p>
<p style="text-align:justify;">- Mais uma&#8230;?</p>
<p style="text-align:justify;">Haydée suspirou, pensando em até quando aquilo iria continuar. A ideia era que ela tivesse um pequeno suporte &#8211; pelo menos a princípio &#8211; para que pudesse continuar estudando e mantendo os seus vícios de forma regular e suficiente. Entretanto, as coisas iam mal, muito mal. E era extremamente difícil presenciar a derrocada de alguém que não estava destinado &#8211; pelo menos dentro dos seus planos &#8211; a isso. Não tinha forças para ser mãe de alguém &#8211; nem mesmo dela mesma. Ela procurou se agachar para ficar mais próxima de seu corpo, mas sentiu uma leve vertigem. Ela também havia bebido.</p>
<p style="text-align:justify;">- Haydée&#8230; O que você fez com as suas anfetaminas?</p>
<p style="text-align:justify;">- Você por acaso quer morrer&#8230;?</p>
<p style="text-align:justify;">Não havia qualquer expressão de reprimenda em seus olhos. Ela apenas queria que aquele momento acabasse. Tudo era supérfluo. Dentro daquele cenário amarelado e doentio, ela apenas conseguia visualizar uma película translúcida com pequenas manchas negras, diluídas como gotas de detergente em contato com a superfície. Sua cabeça rodava. A única saída visível naquele momento era arrastá-lo pelo apartamento de cômodo único e imprimir-lhe algum choque. Algo que o faça acordar da maneira que ela espera que ele acorde. Nada, se levarmos em conta que a kitinete estava praticamente vazia.</p>
<p style="text-align:justify;">Apenas o chuveiro.</p>
<p style="text-align:justify;">Os movimentos da mão esquerda provocaram duas voltas no registro. A água começou a cair em suaves engasgos ritimados. Apoiando a cabeça dele em seu colo, Haydée sentia os fios de água escorrerem lentamente pelos seus cabelos encharcados pelo jato irregular. Com a roupa colada ao seu corpo, friccionava lentamente o rosto e o peito dele, tentando arrancar um pouco de pesar, de interrupção, de ausência de perspectiva. Seu corpo acompanhava levemente a fricção, sentindo aquilo sendo compartilhado de uma forma terrível, pesada, inapropriada. M., por favor, fale comigo. Diga que você vai parar com isso, cuidar de mim, transar comigo embaixo do chuveiro. Eu não consigo controlar os meus nervos. Eu posso surtar a qualquer momento. Mas a voz não sai &#8211; pelo menos com o tom, a agressividade e a segurança necessárias.</p>
<p style="text-align:justify;">- Você precisa reagir. Porque eu não posso, não posso&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">- Você é uma desesperada. &#8211; balbuciou ele. &#8211; E isso é um grande erro. Talvez seja por isso que nós dois estamos aqui&#8230; Embaixo desse chuveiro.</p>
<p style="text-align:justify;">Foi uma cópula silenciosa, claudicante, sem vigor. Tudo finalizou com os fios de Haydée esparramados pelo chão de azulejos encardidos com poças de água amarelada. Ele voltou para o colchão da sala e dormiu um sono sem sonhos. Mas M. precisava acordar.</p>
<p style="text-align:justify;">Ironicamente, Haydée precisava pegar no sono. E, de preferência, não poderia despertar nunca.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/mandybarsp.wordpress.com/362/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/mandybarsp.wordpress.com/362/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/mandybarsp.wordpress.com/362/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/mandybarsp.wordpress.com/362/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/mandybarsp.wordpress.com/362/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/mandybarsp.wordpress.com/362/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/mandybarsp.wordpress.com/362/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/mandybarsp.wordpress.com/362/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/mandybarsp.wordpress.com/362/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/mandybarsp.wordpress.com/362/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/mandybarsp.wordpress.com/362/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/mandybarsp.wordpress.com/362/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/mandybarsp.wordpress.com/362/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/mandybarsp.wordpress.com/362/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=362&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Duas da manhã e um Blood Mary</title>
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		<pubDate>Tue, 18 May 2010 03:17:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Man Osti</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[lirismos]]></category>
		<category><![CDATA[ninguém entende os meus filmes]]></category>
		<category><![CDATA[recalques]]></category>

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		<description><![CDATA[I . Maria Inês, 38 anos, secretária. Executiva. Bilíngue. Seus cabelos, extremamente danificados pelas descolorações sucessivas ao longo dos últimos dez, balançavam em conjunto com os quadris e as pernas com gordura excessiva na pista de dança. Gordura não, “presença”. Realmente, vocês, mulheres, são umas tolas. Homem gosta disso mesmo: presença. Presença corpórea. E Marinês [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=325&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;">I</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">Maria Inês, 38 anos, secretária. Executiva. Bilíngue. Seus cabelos, extremamente danificados pelas descolorações sucessivas ao longo dos últimos dez, balançavam em conjunto com os quadris e as pernas com gordura excessiva na pista de dança.</p>
<p style="text-align:justify;">Gordura não, “presença”.</p>
<p style="text-align:justify;">Realmente, vocês, mulheres, são umas tolas. Homem gosta disso mesmo: presença. Presença corpórea. E Marinês tinha isso para dar e vender. E tudo isso estava inteiramente à minha disposição. Não é fantástico? As coisas sempre acontecem da forma mais simples e fácil possível para mim. Em pouco tempo, bastou algumas pequenas estratégias de convívio social e corporativo para que eu pudesse ter tudo o que quisesse: a fama, o prestígio, o dinheiro&#8230; E Marinês. 38 anos. Secretária. Executiva. Bilíngue.</p>
<p style="text-align:justify;">Não que eu não gostasse de Marinês, mas, sinceramente, sempre encontrei em gente que se porta como cachorro um quê entediante, indigno até de ser usado como capacho ou instrumento de chacota ou algo do tipo. Cachorros. Principalmente aqueles que ficavam revirando o lixo resultante de uma noite de sexta no Prestígio. Aliás, o Prestígio era a minha boate favorita. Não porque eu fosse gerente de lá, mas enfim, o Prestígio era daquelas casas que não poderiam melhorar porque já eram “boazinhas”. Como eu disse, acostumei-me com coisas fáceis, o que me impede de fazer o que se chama por aí de “buscar o melhor”. E o Prestígio era uma coisa que se acomodava bem nessa classificação. Dava para o gasto. Assim como Marinês.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim como a gerência, Marinês veio até mim. Realmente, dava para o gasto, já que fazia todas as minhas vontades e contribuía para a manutenção da aura de facilidade. Marinês era louca por mim. Era louca pela minha gerência, era louca pelas roupas baratas das minhas sucessivas namoradas, era louca pelo meu pulgueiro na rua Paim. Era secretária, executiva e bilíngüe, mas não deveria ter outras distrações em uma vida tão insípida a ponto de bater cartão no Prestígio todas as sextas. Acho que Marinês queria casar comigo, mas enfim, tola, tolinha demais para perceber que toda a sua “presença” não fazia falta a ninguém. A mim, principalmente. Como eu disse, as coisas sempre vieram tão fáceis para mim&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Maria Inês, meu traveco do Viaduto do Chá que não era. 38 anos. Secretária. Executiva. Bilíngue.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">II</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">Pergunto-me até hoje por que cargas d’água ela resolveu se prostituir em troca das bebidas de sexta-feira. É verdade que suas comandas passavam, invariavelmente, dos duzentos reais a cada noite, mas havia pensado a princípio que ela, secretária, executiva e bilíngüe, deveria ganhar o suficiente para bancar extravagâncias desse tipo. Talvez fosse uma tara particular, algo que viesse afirmar a sua personalidadezinha de mulher loura e vulgar, algo que viesse a realizar um contraponto com o seu status glorioso e invejável de secretária, executiva e bilíngüe. Perfeitamente natural. O ser humano precisa de contrapontos para se afirmar em algo que é necessário tomar como real. O real que Marinês talvez precisasse aceitar era o fato de que o dono do Prestígio era um nordestino quinquagenário e sebento, o qual seria muito provavelmente chutado em horário comercial pelas mesmas pernas celulitosas que se abriam tão copiosamente para ele após o expediente. Ironias – a vida é cheia delas. Mas chega. De clichês já bastam os com os quais costumo lidar. Afinal, vamos ser francos: a vida noturna é um clichê amargo e despudorado&#8230; Ainda bem que sempre há pessoas que não descobrem isso a tempo. Afinal, se não fosse assim, as coisas não seriam tão fáceis como eu disse.</p>
<p style="text-align:justify;">Ah, Marinês era fácil. E não era só o teor etílico do que bebia que aumentava essa facilidade. Era a tara de se prostituir a troco de bebida. Eu acho. Aliás, eu tenho certeza. Devia ser delicioso para ela beber vodka até ficar com o seu grande rabo rosado e inchado; daí ela olharia para o nordestino e falaria “tô fácil, tô cadela, tô devassa. Come por trás. Come porque a culpa é sua!”. Imagino o dono do Prestígio estocando, socando com o auxílio daquela forma de barril, e os quadris gelatinosos de Marinês sacudidos com o calor alcoólico da foda. Quer motivo mais interessante que esse? Confesso que isso não vem a ser bem um clichê. É revolucionário, para falar a verdade. Eu nunca teria uma ideia assim. Ou melhor, acho que teria.</p>
<p style="text-align:justify;">Acho, não. Tenho certeza.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">III</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">Já falei que Maria Inês era apaixonada por mim? Bom, não custa falar duas vezes, três, mil. Até porque preciso preencher muitas linhas, e, sinceramente, relatar grandes acontecimentos de forma pormenorizada não é o meu forte. Fazer o quê. Eu nunca fui muito detalhista, logo nunca me importei tanto em descrever os buracos de celulite de Marinês. Não, nunca transamos, mas eu conhecia cada detalhe do seu corpo como um amante extremamente dedicado. Com que carinho eu afagaria cada ondulação, cada saliência daquele corpo excessivo&#8230; Seria algo inexplicável. Eu praticamente sumiria – com exceção da barriga, que só se faz aumentar ano após ano de Prestígio – com minhas pernas magras e desengonçadas nas curvas daquele corpo cheio de presença. Mas talvez o grande erro (ou incômodo, como lhe aprouver melhor, afinal cada um tem um modo de pensar) seja o de eu nunca ter comido efetivamente a secretária, executiva e bilíngüe. Confesso que, não obstante minha falta de vontade e expediente para encarar uma criatura tão disponível e submissa, eu tinha enorme ciência da necessidade de deflorá-la da forma mais impiedosa e completa possível. Enquanto ela não me perseguia com o seu olhar dócil e solícito pela pista de dança, ficava eu imerso em possibilidades de arrancá-la das mãos daquele ser hediondo e nojento. Seu Barril.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas não: confesso que o nojo vinha apenas por um momento. Ao imaginá-la com o seu traseiro feminino , róseo e suíno nas condições que já especifiquei, sentia-me presa do mais incontrolável fetiche. Enquanto bebia o resto do líquido vermelho no copo longo e fálico do bar, meu pênis entrava em consonância com o que eu manipulava com as minhas mãos. Todas as noites de sexta eu era assaltado por um desejo mórbido de subir no terceiro andar e encontrar os dois, lá, em pleno sexo. Mas enfim, nem todas as coisas são fáceis assim.</p>
<p style="text-align:justify;">Não, eu nunca me contradigo.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">IV</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">As horas avançam lentamente no grande relógio do saguão. Como de costume, estava no décimo copo fálico de blood Mary.  Blood Mary é uma bebida bastante cara, mas posso dizer que ela é comodamente paga com o meu bom sucesso. Embora algumas coisas não sejam fáceis nessa vida, todas para mim têm sido absurdamente opostas a essa máxima. Talvez pelo Prestígio. Talvez por Marinês. Talvez pela minha&#8230; Presença.</p>
<p style="text-align:justify;">Ah, com a posição que me era designada, poderia beber todos os blood Maries do universo (por mais que eu não consiga dizê-los no plural). Oras, eu havia caído nas graças do gerente do estabelecimento. Em pouco tempo, bastou algumas pequenas estratégias de convívio social e corporativo para que eu pudesse ter tudo o que quisesse: a fama, o prestígio, o dinheiro&#8230; E Marinês. 38 anos. Secretária. Executiva. Bilíngue. Casas noturnas adoram um fetiche.</p>
<p style="text-align:justify;">E eu o arranjei.</p>
<p style="text-align:justify;">Estava agoniado dessa vez. Miraculosamente, deixei Camila, a derradeira, dançando para poder tomar mais uma dose enquanto aqueles pensamentos extremamente pontiagudos não paravam de me impulsionar para o terceiro andar. Realmente, não me importo. E, como eu já disse, eu jamais me contradigo. Mas, enfim, eu precisava comer Marinês. Eu precisava subir até lá, sentir suas nádegas gordas em minhas mãos, e nem mais me importaria em contracenar em um ménage a trois com aquele nordestino sebento. E Camila não perceberia nada. Acho.</p>
<p style="text-align:justify;">Acho, não. Tenho certeza.</p>
<p style="text-align:justify;">Subi as escadas meio que de maneira trôpega. Blood Maries. Todas em mim, uma por uma, ardendo de desejo por aquela coisa fácil, por aquela mulher de presença, por aquela presença fácil. Um andar subido, um tropeço em um salto que não existia. Por mais que o meu senso de direção ficasse cada vez mais comprometido com o surtimento da bebida, eu era guiado com uma facilidade extrema e feiticeira. Marinês, mulher fácil, de presença de mil Blood Maries.</p>
<p style="text-align:justify;">Secretária. Executiva. Bilíngue.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu poderia poupar todo esse esforço e apenas ter respirado. Inspirar para poder aliviar a minha mente de todo aquele teor alcoólico de duzentos reais em uma comanda que jamais precisaria ser paga com dinheiro ou cartão. Mas, as escadas, que utilidade elas teriam se as coisas fossem tão fáceis como minha vida costumava ser? Não, nem todas as coisas eram fáceis.</p>
<p style="text-align:justify;">Naquele dia, em especial, revelaram-se indiscutivelmente difíceis para mim.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">V</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">Quinquagenário nordestino sebento, mostre seu pau para mim. Só um pouquinho, porque não tenho álcool o suficiente na cabeça ainda para poder encarar a situação com facilidade. Posso fechar os olhos agora? Minha cabeça dói. São os duzentos reais, talvez. Talvez eu os queira pagá-los, hoje, com dinheiro.</p>
<p style="text-align:justify;">Não, ele tem dinheiro para enfiar no seu rabo. Como poderia querer mais do mesmo?</p>
<p style="text-align:justify;">Blood Mary. Você está me impacientando.</p>
<p style="text-align:justify;">Talvez o impaciente nessa história toda fosse eu – e não o nordestino sebento ou Marinês. Marinês impacientava-se para ir embora. Talvez seu organismo tivesse desenvolvido tolerância aos duzentos reais.</p>
<p style="text-align:justify;">Trezentos, Seu Barril. Que tal? Por favor, por favor.</p>
<p style="text-align:justify;">Cabe uma ressalva aqui: Seu Barril tinha dinheiro para enfiar no rabo de Marinês justamente por ceder apenas duzentos – e não trezentos.</p>
<p style="text-align:justify;">Trezentos, Seu Barril, por favor. E a expressão oxigenada, que apreensão extrema, meu Deus.</p>
<p style="text-align:justify;">Ouço os passos de Camila subindo a escada. Camila, tão jovem, ainda virgem com seus dezenove anos mal vividos, será que ela vai tolerar ver esse traseiro feminino e róseo e suíno nessa posição ridícula?</p>
<p style="text-align:justify;">Marinês, você foi o fetiche do Prestígio por dois anos. E por uma vida inteira pra mim, talvez.</p>
<p style="text-align:justify;">Mais uma vez o bom senso perdeu – talvez por não ser tão fácil assim de usar. Acostumei-me às coisas fáceis, como eu já disse&#8230; E jamais me contradigo. Mãos no colchão encardido do mezanino. Mais cinco minutos de “presença” e tudo estará acabado. Venha, eu estou aqui. Com todos os buracos para você contar, Seu Barril.</p>
<p style="text-align:justify;">Ouço os passos de Camila subindo as escadas.</p>
<p style="text-align:justify;">Uma estocada, duas. Incrivelmente, talvez pelo ruído dos passos da virgem de dezenove anos, não consegui conter as minhas lágrimas. Vergonha, horror, asco de anos no Prestígio sendo submetido a esse tipo de coisa. Camila não pode ver isso. Talvez seja por existir gente como Camila que as coisas não ficam tão fáceis assim pra mim. Deveriam ser.</p>
<p style="text-align:justify;">Camila, você está me atrapalhando. Camila, dê meia-volta agora. Camila&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Camila, apague a luz. E não olhe assim para mim, por favor.</p>
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		<title>XVIII. A Volúpia*</title>
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		<pubDate>Mon, 03 May 2010 04:49:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Man Osti</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[o livro do tarot]]></category>

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		<description><![CDATA[Get back, get back again and again I&#8217;ve been here since I can remember when My life is a boat, being blown by you With nothing ahead, just the deepest blue&#8230; (The Verve &#8211; Gravity Grave) . O grande espelho na entrada da sala do imundo apartamento da Zona Norte, incoerentemente colocado ao lado da [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=321&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><em>Get back, get back again and again<br />
I&#8217;ve been here since I can remember when<br />
My life is a boat, being blown by you<br />
With nothing ahead, just the deepest blue&#8230;</em></p>
<p style="text-align:justify;">(The Verve &#8211; Gravity Grave)</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">O grande espelho na entrada da sala do imundo apartamento da Zona Norte, incoerentemente colocado ao lado da janela, sempre fazia com que ela se detivesse por alguns segundos antes de ousar olhar nos olhos dele. Os segundos geralmente viravam minutos, e tudo o que viria a ser uma simples conversa se transformava, muitas vezes, em um diálogo unilateral no qual o excluído era ele. Sempre. Eu pessoalmente me sentia seduzida de maneira igualmente irreversível pela moldura barroca do artefato colocado em um lugar que impedia tantas indecências possíveis, e tantas outras induzi Haydée a pensar em coisas que poderiam ser feitas para serem refletidas&#8230; Nesse miolo. Nesse entremolduras.</p>
<p style="text-align:justify;">Pouco havia acontecido desde o dia em que ela, por um milagre do divino, encontrou o que queria no segundo andar. Falavam-se pouco, e mesmo esse pouco era incomensuravelmente agonizante: apesar do espelho, havia duas poltronas dispostas nos extremos da sala vazia que alimentavam a tensão de forma significativa. Horas alimentadas por uma membrana grossa, opaca, palpável demais para os dedos finos, longos e cheios de cortes pequenos de Haydée.</p>
<p style="text-align:justify;">Haydée. Maldita. Dava a minha existência para que ela pudesse rasgá-la com a mesma facilidade apresentada nas duas semanas anteriores com os seus, sei lá, quinze falos. O que me irritava era a gravidade messiânica com a qual ela se sentava na poltrona oposta e fitava a sinuosidade de seu interlocutor do sexo oposto. As horas se passavam, e a gravidade assumia ares perversos, libidinosos, impassíveis, e tudo assim ficava até que ele levantasse, exasperado, e abrisse a porta, implorando pela sua saída.</p>
<p style="text-align:justify;">A chave sempre estava com ela.</p>
<p style="text-align:justify;">Naquele dia, entretanto, ela não permitiu que ele a tomasse com a sua entrada. Trancou a porta silenciosamente e, em vez de dirigir-se à poltrona após contemplar seu reflexo, permaneceu em frente da moldura, com os olhos baixos. Era extremamente fácil para Haydée se despir. Entretanto, não obstante sua dificuldade consciente em levantar o vestido, ele permaneceu na poltrona. Com os olhos pequenos e azuis bem abertos.</p>
<p style="text-align:justify;">Os 49kg de Haydée eram assustadores em uma primeira instância: nessa constatação apresento uma fadiga extrema. O terror das formas de vidro, por outro lado, fomentava algo paradoxalmente delicado e lisérgico quando ela encostava os omoplatas ossudos na sílica, descendo vagarosamente enquanto suas mãos se deslocavam entre os seios miúdos e o ventre fundo na direção dos ralos pelos pubianos. Ao agachar, as pernas se abriam vagarosamente, e um gesto de entrega extremamente ensaiado pressionava o reflexo dos seios até que eles ficassem totalmente esmagados pelo contato impossível com uma alteridade inexistente.</p>
<p style="text-align:justify;">O outro lado da sala crivou seus dedos no couro da poltrona velha e sem cor. Seu membro seguia o mesmo retesamento e, quando se viu tomado pela proximidade daquele corpo enxangue e tomado por forças demoníacas de ordem femicamente desconhecida, o reflexo de sua força teve como único alvo o pescoço fino e delicado em um gesto preciso e desesperado.</p>
<p style="text-align:justify;">Duas mãos ao redor de um rosto formam um colar.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela baixou os olhos, esperando que o gesto contido e destituído de força aplicada abandonasse a sua potencialidade. Ele puxou-a, pelos ombros, para baixo, encaixando-se de forma brutal e completa.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela era o leão que devoraria a sua alma.</p>
<p style="text-align:justify;">Como se sente agora, Haydée?</p>
<p style="text-align:justify;">Os gestos repetitivos. Nas idas, nas vindas, tentava encontrar o seu olhar, sempre perdido, entretanto, por baixo das pálpebras que não deixavam contemplar seu torpor intolerável. Puxou os cabelos, forçou-a a encará-lo. Mas Haydée não conseguia olhar para fora, e tudo o que restava de suas forças se esvaía em uma procura por uma alteridade que não existia.</p>
<p style="text-align:justify;">Sempre quis olhá-la como uma igual. Mas isso era impossível.</p>
<p style="text-align:justify;">O fim previsível: um tremor convulsivo que, por mais que perguntasse, jamais tomaria parte. Por que se sente tão constrangido, I.? Eu sei que você vai deixá-la, eu sei&#8230; Mas por que essa ânsia de poder? Você jamais poderá tomar Haydée por completo.</p>
<p style="text-align:justify;">Há algo nela que não é seu. E ela o encontrou nesse exato momento. E ele independe de alteridade alguma.</p>
<p style="text-align:justify;">A alteridade era, naquele momento, uma coisa que não existia.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/mandybarsp.wordpress.com/321/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/mandybarsp.wordpress.com/321/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/mandybarsp.wordpress.com/321/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/mandybarsp.wordpress.com/321/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/mandybarsp.wordpress.com/321/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/mandybarsp.wordpress.com/321/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/mandybarsp.wordpress.com/321/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/mandybarsp.wordpress.com/321/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/mandybarsp.wordpress.com/321/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/mandybarsp.wordpress.com/321/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/mandybarsp.wordpress.com/321/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/mandybarsp.wordpress.com/321/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/mandybarsp.wordpress.com/321/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/mandybarsp.wordpress.com/321/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=321&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>XVII. Quatro de ouros.</title>
		<link>http://mandybarsp.wordpress.com/2010/03/23/xvii-quatro-de-ouros/</link>
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		<pubDate>Tue, 23 Mar 2010 01:31:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Man Osti</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[o livro do tarot]]></category>

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		<description><![CDATA[I had my chance coming But now it&#8217;s too late We go down, we go down We go down, its the only way out (Pal W.) . Os braços estão à frente do corpo. Entretanto, essa posição não é simples. Suporia ser resultante de algum grande esforço inútil realizado durante o sono. Mas, talvez, eu [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=311&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>I had my chance coming<br />
But now it&#8217;s too late</em></p>
<p><em>We go down, we go down </em></p>
<p><em>We go down, its the only way out</em></p>
<p>(Pal W.)</p>
<p><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">Os braços estão à frente do corpo. Entretanto, essa posição não é simples. Suporia ser resultante de algum grande esforço inútil realizado durante o sono. Mas, talvez, eu nem estivesse em uma situação adequada para me dar ao luxo de tal esforço mental.</p>
<p style="text-align:justify;">Tão simples quanto a posição é o meu conforto interior nesse exato momento.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu dormi por apenas, acho, meia hora durante a noite inteira. Por maior que fosse a cama de casal – elemento determinante na composição instável do cômodo, percebo agora – estou comprimida na extremidade direita, sem travesseiro, com o pescoço impedido pelo rosto anguloso e ensimesmado. Consigo ter uma ideia vaga dos cachos louros em desalinho, mas visualizo com precisão as sobrancelhas grossas extraordinariamente próximas em um gesto de concentração no qual, na prática, sou impelida no extremo oposto do colchão.</p>
<p style="text-align:justify;">Não fechei os olhos desde que ele tomou essa posição.</p>
<p style="text-align:justify;">- Por que tanto receio em tirá-lo dessa posição? Você não estava se sentindo sufocada?</p>
<p style="text-align:justify;">Certa vez, li um livro de Moravia. Creio que pelas mesmas razões que uma certa Adriana não ousaria mover um dedo em direção aos cachos de um estudante esquerdista frustrado.</p>
<p style="text-align:justify;">Ah, Giacomo Diodati quebraria meu coração seis anos depois.</p>
<p style="text-align:justify;">Aos poucos, vi o sol de inverno surgir pela janela. Tímido, pálido, distante. E eu, aqui, não consigo tirar essa distância de cima de mim. Ele pode nunca mais voltar nessa posição novamente. Mesmo que distante&#8230; Por quê? Esse mundo é insipidamente cruel. Não apresenta o tipo de crueldade saturada, que vem para encher o vazio de anos de clamor por vingança. Ou milagre?</p>
<p style="text-align:justify;">Eu não consigo pregar os olhos.</p>
<p style="text-align:justify;">A presença dele sempre me foi opressa. Desde a primeira vez que o vi, tentei todos os modos possíveis para poder encará-lo como a um igual. Entretanto, percebi, ao longo das tentativas, que a minha impostura não seria mais massiva que os meus mentirosos 49kg. Gelo azul-claro. Eu estou congelada pelo olhar fechado que se recusa a olhar para mim. Por que eu precisei beber? Não que eu me importasse com isso, mas foi algo absolutamente necessário, você deve entender.</p>
<p style="text-align:justify;">Giacomo Diodati, você está quebrando o meu coração nesse exato momento.</p>
<p style="text-align:justify;">Certa vez, disse a um dos inúmeros homens com os quais me relacionei, com todas as letras, que a nossa relação não teria futuro. Por que a ausência de futuro me constrange tanto agora? Giacomo Diodati pode estar sendo afligido por não ter mais para onde ir. Ah, eu não resisto, eu quero supor, eu tenho o direito de supor, ouviu? Eu posso olhar as seringas vazias de futuro espalhadas pelo chão do quarto, analisar os fatos, concatenar as hipóteses e dizer, com todo o domínio de mim mesma e dos outros: este é você agora! Mas o corpo com peso de um quilo de chumbo nunca me ouviria. Afinal, Giacomo Diodati é apenas uma abstração minha.</p>
<p style="text-align:justify;">Giacomo Diodati, eu te amo até os ossos que procuro obsessivamente por onde deixar transparecerem.</p>
<p style="text-align:justify;">Não há ossos. Só hematomas.</p>
<p style="text-align:justify;">- 49kg. Apenas uma constatação.</p>
<p style="text-align:justify;">Cale a boca.</p>
<p style="text-align:justify;">Giacomo Diodati, você é culpado por esses hematomas. Não que tudo o que se passou seja determinante para dar cabo das noites com L. (L.?), mas, enfim, a sua presença aqui me forneceu o único laivo de culpa que pode ser utilizado para que o meu desconforto interior seja ao menos mais tolerável. Por favor, não tire mais a cabeça de mim, por favor, não tire mais a cabeça de cima de mim&#8230; Por favor, eu preciso ir agora&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Gesto repentino. Em seu sono, eis que ele descobre a extremidade esquerda da cama.</p>
<p style="text-align:justify;">Aceite, Haydée. Aceite.</p>
<p style="text-align:justify;">(&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;">Vinte minutos depois, estava eu, o vestido puído de algodão e as meias cinza-chumbo no frio de Santana, olhando a Marginal do alto do viaduto.</p>
<p style="text-align:justify;">- <em>Bom dia, Haydée</em>.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/mandybarsp.wordpress.com/311/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/mandybarsp.wordpress.com/311/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/mandybarsp.wordpress.com/311/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/mandybarsp.wordpress.com/311/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/mandybarsp.wordpress.com/311/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/mandybarsp.wordpress.com/311/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/mandybarsp.wordpress.com/311/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/mandybarsp.wordpress.com/311/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/mandybarsp.wordpress.com/311/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/mandybarsp.wordpress.com/311/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/mandybarsp.wordpress.com/311/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/mandybarsp.wordpress.com/311/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/mandybarsp.wordpress.com/311/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/mandybarsp.wordpress.com/311/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=311&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>XVI. Sete de ouros.</title>
		<link>http://mandybarsp.wordpress.com/2010/03/09/xvi-sete-de-ouros/</link>
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		<pubDate>Tue, 09 Mar 2010 03:09:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Man Osti</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[o livro do tarot]]></category>

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		<description><![CDATA[ameixas maduras só sete na rama curva &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. amado amigo &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. é hora &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. é hora ameixas vermelhas só sete na rama esbelta &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. amigo amado &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. agora &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. agora ameixa nenhuma na rama nua &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. amado amado &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. o tempo passado &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. amigo amigo &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. o tempo perdido (Shi-King) . Eu poderia estar perfeitamente [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=303&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<address><em>ameixas maduras</em></address>
<address><em>só sete</em></address>
<address><em>na rama curva</em></address>
<address><em><span style="color:#ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span><span style="color:#ffffff;"> </span>amado amigo</em></address>
<address><em><em><span style="color:#ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span> </em>é hora</em></address>
<address><em><em><span style="color:#ffffff;"><span style="color:#ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span> </span></em>é hora</em></address>
<address><em>ameixas vermelhas</em></address>
<address><em>só sete</em></address>
<address><em>na rama esbelta</em></address>
<address><em><em><span style="color:#ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span> </em>amigo amado</em></address>
<address><em><em><span style="color:#ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span> </em>agora</em></address>
<address><em><em><span style="color:#ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span> </em>agora</em></address>
<address><em>ameixa nenhuma</em></address>
<address><em>na rama nua</em></address>
<address><em><em><span style="color:#ffffff;"><span style="color:#ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span> </span></em>amado amado</em></address>
<address><em><em><span style="color:#ffffff;"><span style="color:#ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span> </span></em>o tempo passado</em></address>
<address><em><em><span style="color:#ffffff;"><span style="color:#ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<span style="color:#ffffff;">.</span></span><span style="color:#ffffff;">.</span></span> </em>amigo amigo</em></address>
<address><em><em><span style="color:#ffffff;"><span style="color:#ffffff;">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</span> </span></em>o tempo perdido</em></address>
<address><span style="font-style:normal;">(Shi-King)</span></address>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">Eu poderia estar perfeitamente ciente do que viria a acontecer. Poderia, mesmo. Poderia até mudar o rumo de algumas coisas, o que seria mais uma manobra perfeitamente natural. Ora, pois, já fiz isso tantas vezes. Com ela, até. Com Haydée. Não que eu, no decorrer desses vinte e três anos, acabasse por desenvolver uma espécie de compaixão ou pena pela errância pela qual sua vida foi gradativamente caracterizada: o fato é que persistir em determinada gama de arcanos acaba por desenvolver em mim uma espécie de&#8230; Tédio. Já falei que a minha função é tediosa? Pois bem. Creio que esse procedimento agrava de forma considerável essa deleitosa qualidade, e eu poderia muito bem agora, nesse exato momento, virar uma carta aqui e transformar a sua vida em um comercial de margarina. Mas me ocorre, a cada vez que cogito acerca de uma decisão desse tipo, o seguinte questionamento: por mais que eu possa mudar futuros, é possível mudar temperamentos? Ora, se a resposta for não – o que é muito provável – a culpa não é minha. E nunca será. Já ouviu falar acerca do livre-arbítrio cristão? Há pessoas que, por mais que se proponha outro jogo, continuarão nas mesmas cartas.</p>
<p style="text-align:justify;">E você, Haydée, o que acha disso?</p>
<p style="text-align:justify;">Ela me olha com suas amêndoas secas, indiferente.</p>
<p style="text-align:justify;">- Tire outra carta.</p>
<p style="text-align:justify;">E você acha que ele irá aparecer depois dela? Presunção. Presunção extrema. Posso abrir o deck e tirar todas as cartas favoráveis, – e você sabe que eu tenho o poder para isso! – mas creio que nada irá trazê-lo de volta. O incrível, Haydée, é o fato de você ter percebido só agora que o apartamento foi abandonado. Há semanas. Há semanas você não olha a pia, Haydée. Não olha para a louça que não pode ser mais lavada. O número total de copos é&#8230; Ímpar.</p>
<p style="text-align:justify;">Ímpar. Assim como a presença humana aqui, agora, neste apartamento.</p>
<p style="text-align:justify;">- Que tal tirar A Morte?</p>
<p style="text-align:justify;">Nesse exato momento, o seu olhar adquiriu uma nuança extremamente sádica e malévola. Algo como um mau presságio. Haydée tem olhos turvos. Cinzentos. Nunca consegui adivinhar o que havia por trás deles em determinadas situações. Mas esse não seria o meu trabalho? Haydée dificultava muito as coisas. E eu não sou a primeira a apontar essa particularidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Soltei um sorriso sardônico. Que tal A Morte seguida dO Cavaleiro de Espadas?</p>
<p style="text-align:justify;">Uma lágrima. Duas. Um turbilhão lento, silencioso.</p>
<p style="text-align:justify;">Haydée, eu estou tão&#8230; Ao seu redor. Por que você não me deixa entrar? Eu posso resolver isso de uma forma tão rápida&#8230; Aquela trepada foi rápida? Eu nunca soube o que é um orgasmo. Como a coisa acontece?</p>
<p style="text-align:justify;">Suas mãos contorceram-se debilmente. A debilidade, entretanto, toma um corpo assustador quando transpira pelos poros daquele frangalho humano. Nunca vi a sua voz adquirir um matiz tão&#8230; Histérico.</p>
<p style="text-align:justify;">- Chega! Eu não agüento mais esse jogo estúpido! Eu quero que você desapareça&#8230; Que você suma&#8230; Deve ser por isso que ele nunca mais apareceu por aqui! – seu rosto, desde então, adquiria uma tonalidade desesperadoramente vermelha. – Eu não agüento mais, eu quero rachar a minha cabeça em mil só de cogitar a respeito da sua existência. Se for preciso, eu ateio fogo nesse segundo andar agora. Agora. Agora&#8230; Onde está o isqueiro? Onde?</p>
<p style="text-align:justify;">Não havia isqueiros. Ele havia levado tudo, assim como as seringas.</p>
<p style="text-align:justify;">- Eu já sei como eu vou solucionar isso tudo&#8230; Eu vou queimar esse baralho! Esse apanhado de cartas malditas&#8230; Me dá! Me dá agora que tudo isso vai virar pó e cinzas em dois segundos&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Haydée sempre me fez sofrer. Me faz sofrer agora, chorando compulsivamente aninhada em meus joelhos enquanto as cartas estão espalhadas pelo chão. Eu tenho pena dela. Ora, seu choro nada mais é que um soluço inexpressivo e sem efeito. Por que eu me prolongo nesse martírio inútil? Minha vida é surgir e desaparecer. Por que queimá-lo? Ele talvez não esteja no <em>deck</em>. E a razão para isso é, talvez, extremamente simples. Mas a fadiga me impede de explicar qualquer coisa mais nesse sentido, meu anjo. Eu preciso ir embora, mas não antes de recolher os arcanos&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Boa noite, Haydée.</em></p>
<p style="text-align:justify;">E eu não vou recolher a carta que ficou atrás da estante de livros.</p>
<p style="text-align:justify;">Ah&#8230; A culpa, no fundo, é toda minha.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/mandybarsp.wordpress.com/303/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/mandybarsp.wordpress.com/303/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/mandybarsp.wordpress.com/303/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/mandybarsp.wordpress.com/303/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/mandybarsp.wordpress.com/303/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/mandybarsp.wordpress.com/303/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/mandybarsp.wordpress.com/303/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/mandybarsp.wordpress.com/303/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/mandybarsp.wordpress.com/303/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/mandybarsp.wordpress.com/303/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/mandybarsp.wordpress.com/303/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/mandybarsp.wordpress.com/303/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/mandybarsp.wordpress.com/303/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/mandybarsp.wordpress.com/303/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=303&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>XV. A Imperatriz.</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Mar 2010 03:51:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Man Osti</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[o livro do tarot]]></category>

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		<description><![CDATA[It tells me how it feels to be new A thousand voices whisper it true It tells me how it feels to be new And every voice belongs Every voice belongs to you (The Cure &#8211; Kyoto Song) . Grandes pequenos olhos azuis insistiam em olhá-la no reflexo do espelho. O temaki era atrativo, mas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=288&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><em>It tells me how it feels to be new<br />
A thousand voices whisper it true<br />
It tells me how it feels to be new<br />
And every voice belongs<br />
Every voice belongs to you</em></p>
<p style="text-align:justify;">(The Cure &#8211; Kyoto Song)</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">Grandes pequenos olhos azuis insistiam em olhá-la no reflexo do espelho. O temaki era atrativo, mas continuava estático na bandeja. Havia raiz forte espalhada por todos os cantos, formando riscos tênues no prato plástico. Hashi. Hashi. Apenas um graveto entre os dentes. Gabriela, pare de olhar para aquela menina doente. Ela tem cara de louca. Você não vai querer ficar assim um dia, vai? No iPod, Conrad Veidt. <em>Une esquisse de Klimt mais</em>. Seus olhos cinzentos ficavam, por causa disso, semicerrados, tentando captar qual seria a relação de Klimt com a dança de Veidt, e nem imaginavam que a pequena menina de um ano e seis meses continuava no propósito de examiná-la.</p>
<p style="text-align:justify;">Um sorriso. Um sorriso infantil. Um soco na mesa, logo atrás.</p>
<p style="text-align:justify;">Haydée saiu repentinamente do imenso torpor. Estava enjoada. Ou não? Era difícil saber. A facilidade vinha apenas dos olhos da criança, que olhava e sorria, achando graça infinita na virgindade imaculada há muito perdida de Haydée. Ela não pode evitar uma retribuição do sorriso. Suas mãos pousaram timidamente no joelho e deixou-se contemplar, dando periódicos risinhos até que a mãe não tolerasse mais a preferência mórbida da criança. Com um movimento prático e seco, a mãe de Gabriela recolheu-a e saiu por entre as cadeiras batendo a bolsa, ocasionando o primeiro momento de bipolaridade induzida do qual, talvez, a menina poderia se lembrar mais tarde. Os olhos voltaram a baixar. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu um leve rubor subir às faces. Talvez seja coisa do mal estar. O rapaz do balcão a olhava também, mas não era por isso o rubor. Talvez por isso o mal estar. O que importa? Queria saber o que faz Conrad Veidt. Mas nem ele importava, sério. Klimt. O beijo.</p>
<p style="text-align:justify;">O beijo, um casal, flores, muitas flores. Primavera. Fertilidade.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Fértil</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Qual era a última vez que havia menstruado? Não se imaginava mais em ciclos reprodutivos. Aliás, nunca se imaginou. Tinha visto sangue na semana passada, mas era tão pouco e insignificante que não havia atribuído o verdadeiro valor. Talvez seja por causa de outros temakis que não havia comido. Irrelevante. Ou não. Levei-a a um banheiro público. Não havia ninguém. Apenas ela. Sozinha. Mal estar. Não da criança. Dela. Do homem nela. Realmente, não havia nada a ser olhado. Furaria os olhos dele, caso não conseguisse demonstrá-lo de forma lógica. <em>Whatever</em>. Mas lá havia um espelho.</p>
<p style="text-align:justify;">Haydée concentrou-se no reflexo para poder lavar as mãos. Mas deparou-se com uma imagem que não era bem a sua.</p>
<p style="text-align:justify;">O espelho que exibia olhos amendoados e cinzentos havia esquecido de uma característica peculiar. Ou talvez trocado. Algo muito morno e confortável tomava a forma de amêndoa. A boca percebeu tudo, e entreabriu levemente, pedindo que os olhos fechassem. As mãos estranharam. Talvez o tato. Talvez o beijo. Klimt. Ele não estava. Eu, bom, eu não sei onde estava. <em>Whatever</em>. Elas começaram por baixo, subindo pelos joelhos, abarcando o volume restante das pernas que se alargavam no contorno suave da púbis e dos quadris. Levantou o vestido mais um pouco. Sentiu o ventre não tão seco, nem tão pleno.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas, por um momento, uma potencialidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Haydée escorregou vagarosamente pela parede de azulejos duvidosamente limpa, encolhendo-se no canto do toalete em um abraço simultaneamente pudico e sensual, como se houvesse descoberto um corpo vivo pela primeira vez. Onde estava ele? Conrad Veidt desapareceu. Com ele, Klimt, o beijo e a promessa de grandes pequenos olhos azuis. Mas mesmo assim, não fazia diferença agora.</p>
<p style="text-align:justify;">Os cabelos caíram suavemente nos ombros que dominavam, agora, os braços estáticos no colo de Haydée. <em>Fértil</em>.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/mandybarsp.wordpress.com/288/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/mandybarsp.wordpress.com/288/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/mandybarsp.wordpress.com/288/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/mandybarsp.wordpress.com/288/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/mandybarsp.wordpress.com/288/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/mandybarsp.wordpress.com/288/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/mandybarsp.wordpress.com/288/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/mandybarsp.wordpress.com/288/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/mandybarsp.wordpress.com/288/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/mandybarsp.wordpress.com/288/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/mandybarsp.wordpress.com/288/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/mandybarsp.wordpress.com/288/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/mandybarsp.wordpress.com/288/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/mandybarsp.wordpress.com/288/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=288&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>XIV. A Morte.</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Feb 2010 13:55:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Man Osti</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[o livro do tarot]]></category>

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		<description><![CDATA[I don&#8217;t want to start Any blasphemous rumours But I think that God&#8217;s Got a sick sense of humor And when I die I expect to find Him laughing (Martin LeeGore) . Pelo olhar aturdido de Haydée ao contemplar os camafeus do ossário do antigo e vasto cemitério da Vila Formosa &#8211; &#8220;o maior da [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=206&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><em>I don&#8217;t want to start<br />
Any blasphemous rumours<br />
But I think that God&#8217;s<br />
Got a sick sense of humor<br />
And when I die<br />
I expect to find Him laughing</em></p>
<p style="text-align:justify;">(Martin LeeGore)</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">Pelo olhar aturdido de Haydée ao contemplar os camafeus do ossário do antigo e vasto cemitério da Vila Formosa &#8211; &#8220;o maior da América Latina!&#8221; disse ele, ao querer entrar descompromissadamente pelos portões &#8211; eu poderia ter imaginado que ela nunca havia estado em um cemitério. Entretanto, talvez eu esteja exigindo frieza demais por parte dessa curiosa mulherzinha, e, com isso, subestimando suas forças e fragilidades. Outra possibilidade, ainda, seria fruto da ligação estabelecida entre a cadaverina, composto orgânico cuja origem e propriedade lembrava vagamente dos tempos de colégio, com o marrom esmaecido da calda do sorvete napolitano &#8211; que ele, por mais que tenha a visto consumir repetidas vezes, jamais procurou supor que fosse seu favorito. Ah, o sorvete, a cadaverina, os camafeus. Tudo isso levava Haydée a procurar entender o motivo de estar lá, ao lado dele. Sentia-se um pouco enojada com sua presença, com a situação. Ainda bem que o cemitério não era abandonado e os mortos não tinham o sinistro costume de se alojarem em mausoléus com cadeado. Ah, e ainda havia o fator de segurança maior: ela não o havia deixado. Ainda.</p>
<p style="text-align:justify;">- Amor, olha a cara desse, que engraçada! Símbolo de torcida organizada do lado&#8230; Deve ter morrido em uma briga. Trouxa&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Ah, seus comentários eram completamente idiotas. Idiotas e desrespeitosos. Eu, particularmente, confesso que um rubor meio enfurecido subia às minhas faces, e, nesse exato momento, faria tudo o que Haydée pedisse &#8211; TUDO &#8211; com a condição de que deixássemos aquele local imediatamente. Não pelos mortos, pelos quais nutro um sentimento íntimo e pessoal, mas sim por ele. Ah, ele, talvez tenha sido ele. Mas enfim, é melhor parar por aqui, ou isso muito provavelmente deixará de ser um jogo de adivinhação em prol da carta que eu tiro, agora, <em>plena e despodicamente consciente do valor que está incutido em seu verso</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">- Acho que você deveria respeitar mais isso.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela disse. Até que enfim.</p>
<p style="text-align:justify;">Ele fez pouco do olhar de assombro da namorada. O tom de sua pergunta havia saído com um leve teor de estupidez.</p>
<p style="text-align:justify;">- Isso o quê?</p>
<p style="text-align:justify;">- Os mortos.</p>
<p style="text-align:justify;">- E por acaso algum deles está me ouvindo? Ah, por favor, Haydée, agora você nega a sua formação religiosa e acha que os espíritos estão me ouvindo e à noite eles vão puxar o meu pé? Por favor&#8230; Aqui só tem ossos, ossos&#8230; &#8211; repetia, batendo ligeiramente nas caixas da enorme parede. &#8211; A tragédia já foi, acho que agora podemos rir um pouco.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela lançou um olhar acabrunhado. Subitamente o nojo converteu-se em ódio, e ele crescia em progressão geométrica à medida que ele continuava com aqueles comentários estúpidos entre as pobres almas do ossário. Sua mão crispou-se em torno do pote de sorvete vazio, e estava pronta para dar as costas para os ligeiros pés-de-galinha que surgiam ao redor dos olhos dele quando, repentinamente, pararam em frente a uma gaveta com a foto de um recém-nascido. Um anjinho, um anjinho, diria a avó dela, cujos ossos estavam longe demais dali para que a voz ressoasse no presente momento. Um anjinho, Haydée. Você estava se comportando tão bem como um anjinho?</p>
<p style="text-align:justify;">- Bebês não podem escolher. Não podem lutar. Eu poderia ter escolhido. Eu poderia ter podido exercer meu poder de escolha há dois meses&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">- Eu, talvez, há trinta e dois anos. &#8211; interrompeu ele.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela parou de falar. Se fosse o que eu estava pensando, talvez, de fato, concordaria em número e grau. Tédio. Té-dio.</p>
<p style="text-align:justify;">- Quando eu nasci, tive parada cardíaca duas horas após o parto. Sopro. Minha mãe havia feito promessa. Queria que eu vivesse. Os médicos praticamente me ressuscitaram. Era para eu estar em uma gaveta dessas&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Ha ha. Eu gostaria muito que isso tivesse acontecido. Ou melhor, talvez não. O tormento seria muito maior para mim. Questões práticas. Vivo assolada por elas.</p>
<p style="text-align:justify;">- Não gosta de viver? &#8211; perguntou, de forma apenas pontual.</p>
<p style="text-align:justify;">- Não. A vida é tão cômica quanto o brasão da torcida. Se bem que não gostaria de estar ao lado daquele cara nas gavetas.</p>
<p style="text-align:justify;">Haydée, pela primeira vez em dois meses, parou para olhar seu namorado. Dois meses de sexo sufocante, dois meses sem poder dizer o que sentia, dois meses participando de uma grande piada na qual o protagonista era ele. Ele, só ele. Nela, suas aulas de francês eram irrelevantes, não faziam parte do humor negro da vida que casa com a morte justamente por causa disso. Nele, seus livros, seus textos, seu quarto cheio de bonecas, sua vida não poderiam fazer parte. Haydée era fria e fechada. Haydée era fria e fechada como uma gaveta de ossário. A morte não tem graça; então, por que ainda fazer parte da vida?</p>
<p style="text-align:justify;">- Nossa vida sexual é tão cômica quanto um brasão de torcida &#8211; emulou ela, com os olhos baixos fixos nos lírios murchos do pequeno vaso do anjinho.</p>
<p style="text-align:justify;">- Como assim?</p>
<p style="text-align:justify;">- Estou cansada de rir forçada, S. . Só isso.</p>
<p style="text-align:justify;">- Como assim? Você quer discutir relação aqui, dentro do cemitério? É isso? Isso é ridículo!</p>
<p style="text-align:justify;">- O mais ridículo foi você ter me trazido aqui sem finalidade, concorda? Bom, eu acho que discussão não combina com ossários. Nenhum deles aqui puderam fazer isso. Principalmente o anjinho&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">- A gente vai agora pro carro e tirar essa história a limpo. Você é ridícula em complicar as coisas assim&#8230; Haydée, pra onde você vai?</p>
<p style="text-align:justify;">Um passo, dois. Não ia adiantar só andar. Era preciso ser mais rápida. O pote de sorvete caiu em um ruído seco e sem maiores avisos.</p>
<p style="text-align:justify;">- Haydée, volte aqui! &#8211; disse ele, ofegante no meio da corrida.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela corria. Corria dele, corria dos ossos, corria da vida. Corria da cadaverina com gosto de sorvete de chocolate. Mas por que, se a vida é inútil, Haydée? Se ele for um psicopata, seria uma grande facilidade. E o meu respeito por você seria mantido, e até aumentaria, afinal, já disse que nutro pelos mortos um sentimento íntimo e pessoal. Para onde você vai? De mim você não pode fugir. Será que o problema sou eu, e não ele? Será?</p>
<p style="text-align:justify;">Era muito difícil alcançar Haydée. O sopro.</p>
<p style="text-align:justify;">Seis horas da tarde. Quando ele chegou no portão, não havia mais sinal das sapatilhas de cetim. O carro estava com a fechadura arrombada, e sua bolsa não estava mais lá.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/mandybarsp.wordpress.com/206/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/mandybarsp.wordpress.com/206/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/mandybarsp.wordpress.com/206/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/mandybarsp.wordpress.com/206/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/mandybarsp.wordpress.com/206/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/mandybarsp.wordpress.com/206/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/mandybarsp.wordpress.com/206/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/mandybarsp.wordpress.com/206/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/mandybarsp.wordpress.com/206/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/mandybarsp.wordpress.com/206/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/mandybarsp.wordpress.com/206/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/mandybarsp.wordpress.com/206/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/mandybarsp.wordpress.com/206/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/mandybarsp.wordpress.com/206/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=206&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>XIII. O Eremita</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Feb 2010 02:15:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Man Osti</dc:creator>
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		<category><![CDATA[o livro do tarot]]></category>

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		<description><![CDATA[There&#8217;s a hidden door she leads you to These days, she says, I feel my life… (Al Stewart) . And it shows (The world&#8217;s full of lonely people) But when we she wanted me to go She just had to let it show To bring me down if she wanted me to leave She just [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=266&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>There&#8217;s a hidden door she leads you to<br />
These days, she says, I feel my life…<br />
<span style="font-style:normal;"> (Al Stewart)</span></em><br />
<span style="color:#ffffff;"> .</span><br />
<em> And it shows<br />
(The world&#8217;s full of lonely people)<br />
But when we she wanted me to go<br />
She just had to let it show<br />
To bring me down if she wanted me to leave<br />
She just wore it on her sleeve<br />
But at least, I was around</em></p>
<p>(Pal Wakataar)</p>
<p><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:justify;">O fim de tarde prometia uma noite fresca e suave. Março já estava no fim, e aquele calor insuportável dava lugar a um leve arrepio que fazia Haydée tirar sempre a mesma blusa – aquela de lã grosseira branca com ponto pipoca nas ombreiras – do guarda-roupa. Hoje conseguiu ir ao ballet, muito bom, mas ainda não perdeu essa mania capitalistamente inútil de ficar perambulando pelo centro expandido da cidade sem objetivo. Dessa vez, colocou sua bolsa de pano em cima da mureta do pátio do MASP e empoleirou-se nela, deixando as pernas suspensas para o céu imenso se sem prédios próximos à sua frente. Lá podia fumar seu <em>beck</em> sossegada. Bib era excelente – até como fornecedora de entorpecentes.</p>
<p style="text-align:justify;">Olhou em seu relógio com pulseira larga e deduziu que ele chegaria em alguns minutos. Enquanto segurava o cigarro com uma mão, passava delicadamente a ponta dos dedos da outra pelas pernas finas, pelo pescoço, pelos ossos saltados do colo. Quarenta e nove quilos. Conseguiu cumprir sua promessa: nada de sexo casual nessa semana. Precisava se limpar. Limpar a mente, limpar o corpo. Limpar a neve. Havia visto uma vez, em um livro de um autor japonês, (olha só, isso rima de uma forma infantil, que bonitinho) uma prostituta que dizia ser uma limpa-neve sexual. Nada contra ela, mas é uma pena que não neve no Brasil. Deve ser muito fácil congelar-se em uma noite de um inverno japonês, pensou.</p>
<p style="text-align:justify;">Dava o último trago quando ele chegou. Suas mãos morenas detiveram a que segurava o cigarro.</p>
<p style="text-align:justify;">- Pelo menos isso, A., pelo amor de Deus – retrucou debilmente, em tom linear. – Nem diazitromicina tem me relaxado tanto quanto a erva. Não seja chato.</p>
<p style="text-align:justify;">- Eu deveria cuidar de você, não?</p>
<p style="text-align:justify;">- E por quê?</p>
<p style="text-align:justify;">- Por que você não tem ninguém. Porque você precisa voltar a estudar, retomar a sua carreira acadêmica brilhante, engordar, ser bonita, ser cheia de vida como eu sempre a vi&#8230; Eu confesso que eu ainda não entendo&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">- O que você não entende?</p>
<p style="text-align:justify;">Seu olhar era vago. A. tentava controlar o nervosismo que o invadia através da visão de seus olhos grandes cinzentos e baços selvagemmente alocados em um rosto cujo corpo era apenas um frangalho encoberto por um vestido branco de algodão com gola sem <em>overlock</em>. Paciência, A., paciência. Eu te entendo. Ninguém suporta, por muito tempo, a contemplação e a vivência de algo tão doentio.</p>
<p style="text-align:justify;">- Eu sei, é incompreensível e insuportável tolerar por muito tempo algo tão doentio como a minha pessoa; – interrompeu Haydée, como estivesse nos ouvindo esse tempo todo. – deve ser por isso que todos acabaram se afastando. Na verdade, se você pensar bem, nunca estiveram. Todos aqueles amigos, todos os meus sorrisos, tudo aquilo muito lindo e cheio de vida que você viu era apenas uma couraça que eu havia adotado para que pudessem me aceitar um pouco&#8230; Na verdade nunca aceitariam o que havia debaixo disso. E o que há embaixo disso é o que você vê agora. É apenas uma&#8230; Desistência. Uma desistência de fingir. – arrematou, com um sorriso cáustico.</p>
<p style="text-align:justify;">Não consigo precisar quanto tempo ficaram um de frente para o outro, assim, nessa lamúria silenciosa. Na verdade, o tempo não era uma coisa que andava preocupando muito Haydée. E, mais verdadeiro ainda, me preocupa menos ainda. Já reclamei do tédio insuportável que me assola, mas enfim, não liguem, são coisas da profissão. Mas eu sei que A. queria ajudá-la, juro. Haydée nunca acreditou na intenção humanitária dos homens, mas talvez ele&#8230; Bom, talvez eu não acredite também. Eis que ele cansou dessa contemplação muda e lastimosa se aproximou, abraçando-a delicadamente e acarinhando seus cabelos longos e bagunçados. Diante do sobressalto dela, tentou tranqüilizá-la.</p>
<p style="text-align:justify;">- Eu quero que você fique bem&#8230; Não acredito que você não tenha sido feliz um dia. Você tem sonhos? Hum? Uma menina que dança do jeito que você dança não deve parar de pensar em uma coisa grandiosa, um sonho daqueles bem bonitos mesmo. – Ela começou a rir baixinho. – Não, não ria! Ou melhor, ria sim, faz tanto tempo que não ouço um riso limpo vindo da sua boca! Não, não vou fazer nada com você, pode ficar tranqüila&#8230; Eu só&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;"><em>The world’s full of a lonely people. </em>Olhe para dentro, A., olhe para dentro. Há um erro fulcral aí. <em>Humanitarismo.</em> Isso é tão&#8230; Genérico. Talvez seja isso o que Haydée pensou naquele momento. Talvez seja isso o que Haydée acabou concluindo após tanto, tanto tempo&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">- Você não é o primeiro a dizer isso – soltou, enfim.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela precisa do seu&#8230; Humanitarismo?</p>
<p style="text-align:justify;">- Mas eu gosto de você, Haydée, muito&#8230;!</p>
<p style="text-align:justify;">- Você gosta da humanidade, só isso. Por isso, não sabe qual é o meu doce favorito, nem qual é a música que eu costumo escutar mil vezes sem enjoar&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Essa posição provocou sono. Por um lado, ele ficou feliz por ela ter dormido em seus braços. Isso a impediu de ver que, no presente momento, as suas lágrimas desciam vergonhosas no silêncio do fim da tarde.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/mandybarsp.wordpress.com/266/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/mandybarsp.wordpress.com/266/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/mandybarsp.wordpress.com/266/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/mandybarsp.wordpress.com/266/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/mandybarsp.wordpress.com/266/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/mandybarsp.wordpress.com/266/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/mandybarsp.wordpress.com/266/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/mandybarsp.wordpress.com/266/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/mandybarsp.wordpress.com/266/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/mandybarsp.wordpress.com/266/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/mandybarsp.wordpress.com/266/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/mandybarsp.wordpress.com/266/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/mandybarsp.wordpress.com/266/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/mandybarsp.wordpress.com/266/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=266&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>XII. Oito de espadas.</title>
		<link>http://mandybarsp.wordpress.com/2010/01/22/xv-oito-de-espadas/</link>
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		<pubDate>Fri, 22 Jan 2010 02:48:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Man Osti</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[o livro do tarot]]></category>

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		<description><![CDATA[Jasmine, I saw you peeping As I pushed my foot down to the floor I was going round and round the hotel garage Must have been touching close to 94 Oh, but I&#8217;m always crashing in the same car (David Bowie) &#8230; Tudo tende ao tédio. (um anônimo muito observador) . . . Ao Dr. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=251&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><em>Jasmine, I saw you peeping<br />
As I pushed my foot down to the floor<br />
I was going round and round the hotel garage<br />
Must have been touching close to 94<br />
Oh, but I&#8217;m always crashing in the same car</em><br />
(David Bowie)</p>
<p style="text-align:justify;"><em>&#8230; Tudo tende ao tédio.</em><br />
(um anônimo muito observador)</p>
<p style="text-align:justify;">.</p>
<p style="text-align:justify;">.</p>
<p style="text-align:justify;">.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao<br />
Dr. Julio Lemmertz.<br />
Departamento de psiquiatria do Hospital da Universidade de São Paulo.</p>
<p style="text-align:justify;">.</p>
<p style="text-align:justify;">.</p>
<p style="text-align:justify;">Caro Dr. (ou simplesmente Julio?)</p>
<p style="text-align:justify;">.</p>
<p style="text-align:justify;">Devo muitas satisfações a você desde a minha última sessão. Pode parecer que abandonei o tratamento, mas digamos que ainda não. Estou tentando apenas dar umas férias para mim mesma, embora confesse que não venho tendo muito êxito. As coisas acontecem de um modo irresistível, e parece que tudo volta a se acumular dentro de minha mente, e é impossível para mim não continuar martelando nisso tudo. Por mais que eu tente seguir o seu conselho e o da Dra. Heloísa, eu simplesmente cansei de ouvir as mesmas músicas. De ir às mesmas festas. De ler os mesmos livros. De diversificar, acima de tudo, já que nessa leviana tentativa todos os enredos acabam seguindo a mesma estrutura. O encaixe é perfeito: após a expectativa de algo &#8211; finalmente &#8211; grandioso, há uns cinco minutos de euforia &#8211; cada vez mais induzidos tão e somente com a ajuda de algumas doses de álcool ou entorpecentes de calibres variados &#8211; resultantes do enorme sacrifício de uma posterior <em>bad trip</em> instantânea. É, cada vez eu percebo mais que, por mais que eu aparente estar alegre, no fundo estou sempre triste.</p>
<p style="text-align:justify;">Gostaria de dizer que as cartelas do ansiolítico de nome bizarro, bem como as da paroxetina e do lexotan, estão sobrando por aqui. Tentei aumentar as dosagens, comprei mais remédios&#8230; Tanto efeito fazem quanto os confetes de chocolate que vinham na minha caixa de bombons favorita. Devo ter falado sobre isso com a Heloísa uma vez: tudo começou com essa semelhança gritante com a Neosaldina: embora não tivesse aquele gosto delicioso, sossegava-me por algumas horas. Mas enfim, já que os remédios não bastam, o que você me sugere, doutor? O que você me sugere, Julio? Não me venha com esse papinho de que o uso associado com bebidas alcoólicas anula os princípios ativos. Com, sem, já estou oca demais para que qualquer coisa resolva.</p>
<p style="text-align:justify;">Os dias passam por baixo de uma ressaca interminável. Acordo todos os dias com uma enorme dor de cabeça e um sono que insiste em me trazer de volta à cama. Tenho faltado no ballet constantemente &#8211; não que eu não goste, claro, até me distraio um pouco de toda essa paspalhice &#8211; mas faltam-me forças para que o pontapé inicial seja dado. Um amor? Por favor, não chegue com um &#8220;Haydée, há tantos homens por aí, você foi invocar justo com um?&#8221; Quem me dera ser só um. Vou contar um pequeno segredinho, Julio: nesses últmos quinze dias, tive a pachorra de contar os homens com os quais eu me envolvi de alguma forma. Cheguei a significativa quantia de vinte e sete falos. Sem um discurso que me fizesse parar, eu deixei-me à mercê da falta de variação. Ora, Julio, não houve uma abordagem ou trepada que possa ganhar uma atenção especial.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas por que eu estou dizendo tudo isso? Nem tudo, talvez. Meus dias sem o hospital foram grandes demais para uma carta. É uma pena que a variação não acompanhou essa medida. Mas enfim, sinto que estou perdendo o nexo, a coesão e tudo o mais que, em tese, uma pessoa saudável ou minimamente instruída poderia apresentar em um bilhete como esse. O propósito é&#8230; Sinceramente, não há propósito. E não haverá até que você me receite um antidepressivo novo ou qualquer droga que me devolva a alegria de viver que eu julgo ter tido algum dia. Você pode me ajudar, Doutor? Pode deixar uma receita para mim no meu escaninho ou, talvez, uma passagem para a Lituânia com encaminhamento para a realização de tarefas rurais? Eu, sinceramente, sinto que eu perdi o propósito, mas enfim, se você puder me encaminhar um, também agradeço.</p>
<p style="text-align:justify;">Haydée.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/mandybarsp.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/mandybarsp.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/mandybarsp.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/mandybarsp.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/mandybarsp.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/mandybarsp.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/mandybarsp.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/mandybarsp.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/mandybarsp.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/mandybarsp.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/mandybarsp.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/mandybarsp.wordpress.com/251/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/mandybarsp.wordpress.com/251/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/mandybarsp.wordpress.com/251/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=251&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>XI. Três de espadas.</title>
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		<comments>http://mandybarsp.wordpress.com/2010/01/06/xii-tres-de-espadas/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 06 Jan 2010 03:27:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Man Osti</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[o livro do tarot]]></category>

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		<description><![CDATA[We&#8217;re like crystal, we break easy I&#8217;m a poor man if you leave me I&#8217;m applauded, then forgotten It was Summer, now it&#8217;s Autumn&#8230; (New Order) . . Proponho uma pequena narrativa em três microatos completamente díspares &#8211; mas extremamente íntimos entre si. Sem medo de comprometer a verossimilhança, parto do princípio que mesmo os [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=242&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><em>We&#8217;re like crystal, we break easy<br />
I&#8217;m a poor man if you leave me<br />
I&#8217;m applauded, then forgotten<br />
It was Summer, now it&#8217;s Autumn&#8230;</em></p>
<p style="text-align:justify;">(New Order)</p>
<p style="text-align:justify;">.</p>
<p style="text-align:justify;">.</p>
<p style="text-align:justify;">Proponho uma pequena narrativa em três microatos completamente díspares &#8211; mas extremamente íntimos entre si. Sem medo de comprometer a verossimilhança, parto do princípio que mesmo os opostos podem se sentir atraídos dentro de uma relação&#8230; Mas olha só, há toda aquele esquema de três narrativas com uma tônica especificíssima, logo vou trabalhar com algo extremamente batido. Confortável, não? Ninguém toleraria um excesso de procedimentos pós-modernos por aqui, é evidente; nem eu mesma ando tolerando essa excentricidade pela qual Haydée se vê tomada; um sopro na ferida é necessário. Considerem também que tudo o que foi dito até agora seguiu, na realidade, o vellho procedimento das variações sobre o mesmo tema: no final, tudo é muito simples, tudo é muito clássico. Uma carta emula a outra em uma faceta que lhe é peculiar; assim, ficamos entretidos por mais cinco minutos no jogo da vida. Bom, aos atos &#8211; pois me cansa tagarelar por aqui.<br />
.<br />
.<br />
<span style="text-decoration:underline;"> Ato I: pátio do MASP, outubro de 2008</span></p>
<p style="text-align:justify;">Eu honestamente não gostaria de me torturar mais. Já está mais que provado que ele não me quer, não se interessa por mim e não corresponde ao entusiasmo que demonstro com todas as forças. Mas por que continuo no seu colo a pegar-lhe as coxas e morder a boca dele? O sol já está se pondo, alguns mendigos se aproximam. É óbvio que ele se sentirá profundamente incomodado: um trapo enodoa a tapeçaria da decoração de bom gosto da sua sala. Mas quero rasgar todas, todas as tapeçarias desse cômodo &#8211; até porque são todas minhas.</p>
<p style="text-align:justify;">- Haydée, pare com isso&#8230; Nós vamos nos machucar ainda mais se continuarmos. Você quer que a gente trepe aqui mesmo e você acorde amanhã com um remorso extremo de tudo o que aconteceu aqui?</p>
<p style="text-align:justify;">Laivos vermelhos dos faróis. A maquiagem borrada nos olhos dela se une às pupilas cinzentas em uma pintura confusa nos trapos do que era antes uma tapeçaria. Ela hesitou antes de responder.</p>
<p style="text-align:justify;">- Não me importo mais. Acabou tudo, mesmo. Pouco se me dá.</p>
<p style="text-align:justify;">- Não, não quero que você diga isso! Eu quero que você seja feliz, Haydée. Você não pode se entregar desse jeito à primeira desgraça que aparece na sua vida&#8230; Você merece alguém que te ame de verdade&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Não pôde conter um riso escarninho nos lábios inchados.</p>
<p style="text-align:justify;">- Você está me amando agora, amor.<br />
.<br />
.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-decoration:underline;">Ato II: viaduto de acesso à Av. do Estado, maio de 2007.</span></p>
<p style="text-align:justify;">Eu poderia pular daqui agora. Ele consegue entrever isso. Ele me olha, lê meus pensamentos e está ao meu lado para que eu não pule. Acho que ele pensa que eu iria pular por causa dele&#8230; Na verdade, nunca pularia por causa de um homem. Homens são todos iguais. Pularia apenas em decorrência dessa falta de variação na qual essa história toda se transformou. No geral, aqui é imundo e, palavra de honra, externalizar essa sujeira toda com um tombo nos entulhos seria algo um tanto quanto terapêutico. L. dirige a mim um olhar de &#8220;não pule, por favor&#8221;&#8230; Vou falar algo para tranquilizá-lo.</p>
<p style="text-align:justify;">- Pode ficar tranquilo, não vou pular&#8230; Só pedi para vir até aqui para tomar uma fresca. Não está uma madrugada linda?</p>
<p style="text-align:justify;">- Tirando o vermelho do seu rosto&#8230; Acho que são as fogueiras do entulho. Bom, vamos ao que interessa, minha linda?</p>
<p style="text-align:justify;">- Eu te atraso, não é?</p>
<p style="text-align:justify;">O olhar dele nesse momento foi de indignação total. Desculpe, quem lê os pensamentos aqui sou eu.</p>
<p style="text-align:justify;">- Eu sei o que faremos depois, e o que acontecerá depois. Eu preciso apenas de uma&#8230; De uma trégua&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Entrei no carro e fechei a porta. Ele me seguiu.<br />
.<br />
.</p>
<p style="text-align:justify;"><span style="text-decoration:underline;">Ato III: Av. Brigadeiro Faria Lima, Fevereiro de 2010.</span></p>
<p style="text-align:justify;">Não pude deixar de envolvê-lo e beijar sua testa. Fazia um calor dos diabos&#8230; Mas eu tremia de frio. A sua magreza doentia, associada aos olhos pálidos e às marcas no antebraço, proporcionavam um quadro inebriante, lisérgico e, ao mesmo tempo, sutil e acolhedor como uma seringa vazia. Fazia seis meses desde a última relação que tivemos, e, não obstante toda a vontade de vê-lo de novo, não conseguia sequer tocar nele sem que chorasse compulsivamente. Mas eu preciso&#8230; Eu preciso&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">- Eu não sei o que fazer &#8211; concluiu ele. &#8211; Eu sei que é impossível a gente continuar.</p>
<p style="text-align:justify;">Os olhos de Haydée estavam incrivelmente opacos. Ambos apertavam os ossos um do outro, mordiam-se, perguntavam-se.</p>
<p style="text-align:justify;">- Eu não posso mais ser feliz&#8230; Não posso ser depois de tudo o que passou.</p>
<p style="text-align:justify;">Ele conteve os reflexos do tremor dos braços, esboçando um gesto de dúvida nos olhos com olheiras alucinadas.</p>
<p style="text-align:justify;">- Nós não podemos. Porque tudo já passou.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/mandybarsp.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/mandybarsp.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/mandybarsp.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/mandybarsp.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/mandybarsp.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/mandybarsp.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/mandybarsp.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/mandybarsp.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/mandybarsp.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/mandybarsp.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/mandybarsp.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/mandybarsp.wordpress.com/242/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/mandybarsp.wordpress.com/242/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/mandybarsp.wordpress.com/242/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=mandybarsp.wordpress.com&amp;blog=3170333&amp;post=242&amp;subd=mandybarsp&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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