Licht.

Agosto 22, 2008

Três horas da manhã passadas. A iluminação da casa noturna tinha um brilho azulado, vítreo, estéril, vazio. Apoiada na grade do mezanino, ela olhava para baixo com olhos pretos de lápis excessivo. Precisava comprar sombra preta… Usou o restante do outro pote para compor o visual derradeiro da noite. Intensamente marcados. Boca inexistente por gastar o corretivo para desviar a atenção dos lábios finos.

Um pé na grade. O outro. O indicador escorreu pela volta do ferro. A altura era formidável. A música, ensurdecedora. Precisava subir mais. Saiu da grade e encontrou duas escadarias que a levaram a um salão com grandes janelas, todas novamente gradeadas. Quis encolher-se. Agachou-se com vagar, espremendo-se em si mesma. Quantos foram nessa noite? Três? Nenhum beijo. Ela não quis. Não suporta a idéia de ser tocada de novo. Queria chorar, mas as lágrimas não escorriam. Estática. Boneca de luxo. As longas pernas entrecruzavam-se, apertavam-se em recusas contra o ar bulinante e azul que a circundava. O sofá encostado na janela revelou-se grande para acolher sua tristeza convulsiva. Sua mãe havia lhe dito que não podia beber naquela noite, já que estava tomando antidepressivos… Ele não vem… Ele não vem. Nunca mais o veria. Assim ela decidiu. Ele não a amava.

Uma grande mão passou suavemente pelo seu pescoço. Grande e macia, livre de trabalhos masculinos. Mão que escrevia e pedia novamente promessas. Encolheu-se com fúria. Os olhos que acompanhavam a mão a impediram.

- Shh… Estou aqui.

Fios negros começaram a desenhar o seu rosto. Sem perguntas… Sem perguntas. Lábios grandes e carnudos queriam os pequenos e finos, mas antes passavam pelo pescoço, desciam para o que se encontrava por debaixo do colarinho de rendas, refletiam a impaciência de descobrir o que havia por baixo da camisa fina. O rosto enegrecia. Preciso comprar mais sombra preta…

Ele a envolvia com seu grande corpo. Pequena, dissolvia-se em convulsões cada vez mais lânguidas e em um choro constante e mudo. Os lábios, entreabertos e despidos de corretivo. Por que estava vazia? Quero-vos inteira… Quero-vos inteira. Mas ela nada dizia. Não protestava. Não combatia. Eu esvaziei-me de mim para que pudesse te esquecer… Ele abraçava um despojo da mulher que ela havia sido. Os olhos que antes ficavam apertados ao sorriso agora sequer piscavam. Abertos. Pretos. Escorridos. Opacos. Seu brilho purpúreo refletia a luz azul.

- Estamos na água…?

Seus olhos eram azuis, também. Apertou-a com força e escondeu a liquidez que surgia. You sharpened up my senses… Deitou-a no sofá e assim ficou unido a ela até que o brilho azul sumisse. Ela dormia.

[20.05.2007]

Noites Brancas.

Abril 10, 2008

Suas ankle boots bateram em um ruído surdo e seco no último degrau da escada. Deu mais três passinhos em direção à sala de vídeo, detendo-se por um momento ante a inesperada figura do professor. Sentiu-se corada, Lolita, os cachos não ajudando muito. Perguntou a si mesma se a paixão pelo conhecimento não era fruto da paixão por aquele homem - ou, muito provavelmente, se o caso fosse inverso. Imagine, ela, sempre fascinada pela Rus Kievana, pela terra dos tzares e todo lo más, como poderia? Virou-se e fingiu ir beber água.

Cinco minutos. Ouve-se, novamente, o ruído das ankle boots na escada. O filme do Tarkóvski já havia começado. Pediu licença a ele - figura alta, esquálida, tímida e ligeiramente desajeitada - com a fala corada e a vergonha com a vontade de fugir. Enfiou-se em qualquer lugar da penumbra. O tempo passava e Marfa, nua e canhestra, dizia a Andrei Rubliov. Seus olhos desviaram-se um pouco para as pernas compridas que estavam mais ao lado. Percorreu a linha do corpo, com olhos engazeados que, pela graça de Deus não podiam ser vistos com clareza dentro da escuridão.

“Vocês fazem coisas pecaminosas aos olhos de Deus. Vocês não sabem o que é o amor… O que vocês chamam de amor não passa do amor das feras, de devassidão e carnalidades.”

“Mas há tipos diferentes de amor? Pensei que amor fosse uma coisa só…”

O beijo. Rubliov se esquiva no pegar de suas coisas e sai para fora da sala, sutil e ligeiramente - não sem deixar de sussurrar ao professor. Ela precisava avisar que não poderia ficar até mais tarde, já que não conseguiria pegar o ônibus se o fizesse.

Pernas se encolheram junto da cadeira universitária.

Ankle boots foram, aos poucos, batendo rápidas e cada vez mais distantes pelo corredor da sala 270.

Land.

Abril 5, 2008

Segunda poça pulada naquela manhã. Sempre teve nojo dos inúmeros pontos de acúmulo de água do centro da cidade… Mas hoje não se importava. Também não se importava por ter acordado cedo: o céu estava limpo após a noite de chuva de setembro magro ainda pelo frio - que insistia em gelar seu rosto às sete da manhã. As pombas não pareciam se importar muito também: olhavam com um misto de medo, desdém e estupidez para ela - a figura levemente esguia e envolta em cabeleira e casaco de lã negros. Ela assopra um cacho que lhe atrapalhava a visão. O cacho mostrou-lhe, então, que havia outra espécie de coisa a ser tirada.

Mas essa, desta vez, não saiu.

Tentou passar desapercebida. Ele puxou a faixa do casaco.

- Eu, sinceramente, não imaginaria ver algo como você. Aqui. Nesse horário.

- Talvez eu também não imaginasse.

- Bom, eu estou atrasada…

- A cada vez que você reaparece, alguma coisa está mudada. Deixou crescer, é?

- Imagina… São seus olhos. Deixe-me ir, sim?

Agarrou seus cabelos. Os lábios estavam vermelhos e rachados. Olhos estranhos a fixaram-na.

- Faz tempo… Quantos meses?

- Sabe que eu não parei para pensar nisso?

- Você nunca vai admitir…

- Não vou. Quero ir embora…

- Senti sua falta. Muito.

Puxou-a para si. Abraçou-a, quieto. Pairava uma umidade serena. As pombas voaram, igual cena de filme.

E ela pensou que, em certo momento, considerou que já tinha visto tudo.

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“Baby, I’m really sorry
to break your dream
when it’s so early
Headlights
on the windowpane
they’re getting lost
in the light of day…”