Bêbado. Bêbado. Alguns momentos atrás, a coloração do vômito harmonizava com as luzes pálidas e amareladas do centro da cidade em mais um final de fim de semana. Apenas o vômito – e não ele – havia percebido que Haydée havia chegado com as alças de paetê negro desalinhadas e com o salto Gautier nas mãos. Bêbado filho da puta.
Longas, finas e com pequenos hematomas na parte superior, as pernas de Haydée saltaram delicadamente por entre as nódoas que fediam horrivelmente e estacaram acima do corpo dele. As olheiras estavam mais profundas que antes, e o seu rosto, outrora um pouco mais bonito, estava com aquelas marcas diagonais que complementam as olheiras. Cansaço, exaustão. Fracasso. Abra os olhos, M., abra os olhos. Eu quero olhar para você assim como você precisa olhar para mim. Abra os olhos.
Ele era só mais um. Deve ter sido isso que o machucou tanto.
- Você acabou com as minhas anfetaminas. Eu deveria te espancar por causa disso.
- Mais uma…?
Haydée suspirou, pensando em até quando aquilo iria continuar. A ideia era que ela tivesse um pequeno suporte – pelo menos a princípio – para que pudesse continuar estudando e mantendo os seus vícios de forma regular e suficiente. Entretanto, as coisas iam mal, muito mal. E era extremamente difícil presenciar a derrocada de alguém que não estava destinado – pelo menos dentro dos seus planos – a isso. Não tinha forças para ser mãe de alguém – nem mesmo dela mesma. Ela procurou se agachar para ficar mais próxima de seu corpo, mas sentiu uma leve vertigem. Ela também havia bebido.
- Haydée… O que você fez com as suas anfetaminas?
- Você por acaso quer morrer…?
Não havia qualquer expressão de reprimenda em seus olhos. Ela apenas queria que aquele momento acabasse. Tudo era supérfluo. Dentro daquele cenário amarelado e doentio, ela apenas conseguia visualizar uma película translúcida com pequenas manchas negras, diluídas como gotas de detergente em contato com a superfície. Sua cabeça rodava. A única saída visível naquele momento era arrastá-lo pelo apartamento de cômodo único e imprimir-lhe algum choque. Algo que o faça acordar da maneira que ela espera que ele acorde. Nada, se levarmos em conta que a kitinete estava praticamente vazia.
Apenas o chuveiro.
Os movimentos da mão esquerda provocaram duas voltas no registro. A água começou a cair em suaves engasgos ritimados. Apoiando a cabeça dele em seu colo, Haydée sentia os fios de água escorrerem lentamente pelos seus cabelos encharcados pelo jato irregular. Com a roupa colada ao seu corpo, friccionava lentamente o rosto e o peito dele, tentando arrancar um pouco de pesar, de interrupção, de ausência de perspectiva. Seu corpo acompanhava levemente a fricção, sentindo aquilo sendo compartilhado de uma forma terrível, pesada, inapropriada. M., por favor, fale comigo. Diga que você vai parar com isso, cuidar de mim, transar comigo embaixo do chuveiro. Eu não consigo controlar os meus nervos. Eu posso surtar a qualquer momento. Mas a voz não sai – pelo menos com o tom, a agressividade e a segurança necessárias.
- Você precisa reagir. Porque eu não posso, não posso…
- Você é uma desesperada. – balbuciou ele. – E isso é um grande erro. Talvez seja por isso que nós dois estamos aqui… Embaixo desse chuveiro.
Foi uma cópula silenciosa, claudicante, sem vigor. Tudo finalizou com os fios de Haydée esparramados pelo chão de azulejos encardidos com poças de água amarelada. Ele voltou para o colchão da sala e dormiu um sono sem sonhos. Mas M. precisava acordar.
Ironicamente, Haydée precisava pegar no sono. E, de preferência, não poderia despertar nunca.

15 novembro, 2010 no 6:02 am
Castigou com as palavras!! Lindo!