I
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Maria Inês, 38 anos, secretária. Executiva. Bilíngue. Seus cabelos, extremamente danificados pelas descolorações sucessivas ao longo dos últimos dez, balançavam em conjunto com os quadris e as pernas com gordura excessiva na pista de dança.
Gordura não, “presença”.
Realmente, vocês, mulheres, são umas tolas. Homem gosta disso mesmo: presença. Presença corpórea. E Marinês tinha isso para dar e vender. E tudo isso estava inteiramente à minha disposição. Não é fantástico? As coisas sempre acontecem da forma mais simples e fácil possível para mim. Em pouco tempo, bastou algumas pequenas estratégias de convívio social e corporativo para que eu pudesse ter tudo o que quisesse: a fama, o prestígio, o dinheiro… E Marinês. 38 anos. Secretária. Executiva. Bilíngue.
Não que eu não gostasse de Marinês, mas, sinceramente, sempre encontrei em gente que se porta como cachorro um quê entediante, indigno até de ser usado como capacho ou instrumento de chacota ou algo do tipo. Cachorros. Principalmente aqueles que ficavam revirando o lixo resultante de uma noite de sexta no Prestígio. Aliás, o Prestígio era a minha boate favorita. Não porque eu fosse gerente de lá, mas enfim, o Prestígio era daquelas casas que não poderiam melhorar porque já eram “boazinhas”. Como eu disse, acostumei-me com coisas fáceis, o que me impede de fazer o que se chama por aí de “buscar o melhor”. E o Prestígio era uma coisa que se acomodava bem nessa classificação. Dava para o gasto. Assim como Marinês.
Assim como a gerência, Marinês veio até mim. Realmente, dava para o gasto, já que fazia todas as minhas vontades e contribuía para a manutenção da aura de facilidade. Marinês era louca por mim. Era louca pela minha gerência, era louca pelas roupas baratas das minhas sucessivas namoradas, era louca pelo meu pulgueiro na rua Paim. Era secretária, executiva e bilíngüe, mas não deveria ter outras distrações em uma vida tão insípida a ponto de bater cartão no Prestígio todas as sextas. Acho que Marinês queria casar comigo, mas enfim, tola, tolinha demais para perceber que toda a sua “presença” não fazia falta a ninguém. A mim, principalmente. Como eu disse, as coisas sempre vieram tão fáceis para mim…
Maria Inês, meu traveco do Viaduto do Chá que não era. 38 anos. Secretária. Executiva. Bilíngue.
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II
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Pergunto-me até hoje por que cargas d’água ela resolveu se prostituir em troca das bebidas de sexta-feira. É verdade que suas comandas passavam, invariavelmente, dos duzentos reais a cada noite, mas havia pensado a princípio que ela, secretária, executiva e bilíngüe, deveria ganhar o suficiente para bancar extravagâncias desse tipo. Talvez fosse uma tara particular, algo que viesse afirmar a sua personalidadezinha de mulher loura e vulgar, algo que viesse a realizar um contraponto com o seu status glorioso e invejável de secretária, executiva e bilíngüe. Perfeitamente natural. O ser humano precisa de contrapontos para se afirmar em algo que é necessário tomar como real. O real que Marinês talvez precisasse aceitar era o fato de que o dono do Prestígio era um nordestino quinquagenário e sebento, o qual seria muito provavelmente chutado em horário comercial pelas mesmas pernas celulitosas que se abriam tão copiosamente para ele após o expediente. Ironias – a vida é cheia delas. Mas chega. De clichês já bastam os com os quais costumo lidar. Afinal, vamos ser francos: a vida noturna é um clichê amargo e despudorado… Ainda bem que sempre há pessoas que não descobrem isso a tempo. Afinal, se não fosse assim, as coisas não seriam tão fáceis como eu disse.
Ah, Marinês era fácil. E não era só o teor etílico do que bebia que aumentava essa facilidade. Era a tara de se prostituir a troco de bebida. Eu acho. Aliás, eu tenho certeza. Devia ser delicioso para ela beber vodka até ficar com o seu grande rabo rosado e inchado; daí ela olharia para o nordestino e falaria “tô fácil, tô cadela, tô devassa. Come por trás. Come porque a culpa é sua!”. Imagino o dono do Prestígio estocando, socando com o auxílio daquela forma de barril, e os quadris gelatinosos de Marinês sacudidos com o calor alcoólico da foda. Quer motivo mais interessante que esse? Confesso que isso não vem a ser bem um clichê. É revolucionário, para falar a verdade. Eu nunca teria uma ideia assim. Ou melhor, acho que teria.
Acho, não. Tenho certeza.
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III
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Já falei que Maria Inês era apaixonada por mim? Bom, não custa falar duas vezes, três, mil. Até porque preciso preencher muitas linhas, e, sinceramente, relatar grandes acontecimentos de forma pormenorizada não é o meu forte. Fazer o quê. Eu nunca fui muito detalhista, logo nunca me importei tanto em descrever os buracos de celulite de Marinês. Não, nunca transamos, mas eu conhecia cada detalhe do seu corpo como um amante extremamente dedicado. Com que carinho eu afagaria cada ondulação, cada saliência daquele corpo excessivo… Seria algo inexplicável. Eu praticamente sumiria – com exceção da barriga, que só se faz aumentar ano após ano de Prestígio – com minhas pernas magras e desengonçadas nas curvas daquele corpo cheio de presença. Mas talvez o grande erro (ou incômodo, como lhe aprouver melhor, afinal cada um tem um modo de pensar) seja o de eu nunca ter comido efetivamente a secretária, executiva e bilíngüe. Confesso que, não obstante minha falta de vontade e expediente para encarar uma criatura tão disponível e submissa, eu tinha enorme ciência da necessidade de deflorá-la da forma mais impiedosa e completa possível. Enquanto ela não me perseguia com o seu olhar dócil e solícito pela pista de dança, ficava eu imerso em possibilidades de arrancá-la das mãos daquele ser hediondo e nojento. Seu Barril.
Mas não: confesso que o nojo vinha apenas por um momento. Ao imaginá-la com o seu traseiro feminino , róseo e suíno nas condições que já especifiquei, sentia-me presa do mais incontrolável fetiche. Enquanto bebia o resto do líquido vermelho no copo longo e fálico do bar, meu pênis entrava em consonância com o que eu manipulava com as minhas mãos. Todas as noites de sexta eu era assaltado por um desejo mórbido de subir no terceiro andar e encontrar os dois, lá, em pleno sexo. Mas enfim, nem todas as coisas são fáceis assim.
Não, eu nunca me contradigo.
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IV
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As horas avançam lentamente no grande relógio do saguão. Como de costume, estava no décimo copo fálico de blood Mary. Blood Mary é uma bebida bastante cara, mas posso dizer que ela é comodamente paga com o meu bom sucesso. Embora algumas coisas não sejam fáceis nessa vida, todas para mim têm sido absurdamente opostas a essa máxima. Talvez pelo Prestígio. Talvez por Marinês. Talvez pela minha… Presença.
Ah, com a posição que me era designada, poderia beber todos os blood Maries do universo (por mais que eu não consiga dizê-los no plural). Oras, eu havia caído nas graças do gerente do estabelecimento. Em pouco tempo, bastou algumas pequenas estratégias de convívio social e corporativo para que eu pudesse ter tudo o que quisesse: a fama, o prestígio, o dinheiro… E Marinês. 38 anos. Secretária. Executiva. Bilíngue. Casas noturnas adoram um fetiche.
E eu o arranjei.
Estava agoniado dessa vez. Miraculosamente, deixei Camila, a derradeira, dançando para poder tomar mais uma dose enquanto aqueles pensamentos extremamente pontiagudos não paravam de me impulsionar para o terceiro andar. Realmente, não me importo. E, como eu já disse, eu jamais me contradigo. Mas, enfim, eu precisava comer Marinês. Eu precisava subir até lá, sentir suas nádegas gordas em minhas mãos, e nem mais me importaria em contracenar em um ménage a trois com aquele nordestino sebento. E Camila não perceberia nada. Acho.
Acho, não. Tenho certeza.
Subi as escadas meio que de maneira trôpega. Blood Maries. Todas em mim, uma por uma, ardendo de desejo por aquela coisa fácil, por aquela mulher de presença, por aquela presença fácil. Um andar subido, um tropeço em um salto que não existia. Por mais que o meu senso de direção ficasse cada vez mais comprometido com o surtimento da bebida, eu era guiado com uma facilidade extrema e feiticeira. Marinês, mulher fácil, de presença de mil Blood Maries.
Secretária. Executiva. Bilíngue.
Eu poderia poupar todo esse esforço e apenas ter respirado. Inspirar para poder aliviar a minha mente de todo aquele teor alcoólico de duzentos reais em uma comanda que jamais precisaria ser paga com dinheiro ou cartão. Mas, as escadas, que utilidade elas teriam se as coisas fossem tão fáceis como minha vida costumava ser? Não, nem todas as coisas eram fáceis.
Naquele dia, em especial, revelaram-se indiscutivelmente difíceis para mim.
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V
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Quinquagenário nordestino sebento, mostre seu pau para mim. Só um pouquinho, porque não tenho álcool o suficiente na cabeça ainda para poder encarar a situação com facilidade. Posso fechar os olhos agora? Minha cabeça dói. São os duzentos reais, talvez. Talvez eu os queira pagá-los, hoje, com dinheiro.
Não, ele tem dinheiro para enfiar no seu rabo. Como poderia querer mais do mesmo?
Blood Mary. Você está me impacientando.
Talvez o impaciente nessa história toda fosse eu – e não o nordestino sebento ou Marinês. Marinês impacientava-se para ir embora. Talvez seu organismo tivesse desenvolvido tolerância aos duzentos reais.
Trezentos, Seu Barril. Que tal? Por favor, por favor.
Cabe uma ressalva aqui: Seu Barril tinha dinheiro para enfiar no rabo de Marinês justamente por ceder apenas duzentos – e não trezentos.
Trezentos, Seu Barril, por favor. E a expressão oxigenada, que apreensão extrema, meu Deus.
Ouço os passos de Camila subindo a escada. Camila, tão jovem, ainda virgem com seus dezenove anos mal vividos, será que ela vai tolerar ver esse traseiro feminino e róseo e suíno nessa posição ridícula?
Marinês, você foi o fetiche do Prestígio por dois anos. E por uma vida inteira pra mim, talvez.
Mais uma vez o bom senso perdeu – talvez por não ser tão fácil assim de usar. Acostumei-me às coisas fáceis, como eu já disse… E jamais me contradigo. Mãos no colchão encardido do mezanino. Mais cinco minutos de “presença” e tudo estará acabado. Venha, eu estou aqui. Com todos os buracos para você contar, Seu Barril.
Ouço os passos de Camila subindo as escadas.
Uma estocada, duas. Incrivelmente, talvez pelo ruído dos passos da virgem de dezenove anos, não consegui conter as minhas lágrimas. Vergonha, horror, asco de anos no Prestígio sendo submetido a esse tipo de coisa. Camila não pode ver isso. Talvez seja por existir gente como Camila que as coisas não ficam tão fáceis assim pra mim. Deveriam ser.
Camila, você está me atrapalhando. Camila, dê meia-volta agora. Camila…
Camila, apague a luz. E não olhe assim para mim, por favor.

27 maio, 2010 no 1:45 pm
=o
Tadinha da Camila.
15 junho, 2010 no 8:32 am
Diferente, como você falou, e muito bom! Série Noir.
Ah, mudança cabalística no domínio, taí registrado.