XVIII. A Volúpia*

Get back, get back again and again
I’ve been here since I can remember when
My life is a boat, being blown by you
With nothing ahead, just the deepest blue…

(The Verve – Gravity Grave)

.

O grande espelho na entrada da sala do imundo apartamento da Zona Norte, incoerentemente colocado ao lado da janela, sempre fazia com que ela se detivesse por alguns segundos antes de ousar olhar nos olhos dele. Os segundos geralmente viravam minutos, e tudo o que viria a ser uma simples conversa se transformava, muitas vezes, em um diálogo unilateral no qual o excluído era ele. Sempre. Eu pessoalmente me sentia seduzida de maneira igualmente irreversível pela moldura barroca do artefato colocado em um lugar que impedia tantas indecências possíveis, e tantas outras induzi Haydée a pensar em coisas que poderiam ser feitas para serem refletidas… Nesse miolo. Nesse entremolduras.

Pouco havia acontecido desde o dia em que ela, por um milagre do divino, encontrou o que queria no segundo andar. Falavam-se pouco, e mesmo esse pouco era incomensuravelmente agonizante: apesar do espelho, havia duas poltronas dispostas nos extremos da sala vazia que alimentavam a tensão de forma significativa. Horas alimentadas por uma membrana grossa, opaca, palpável demais para os dedos finos, longos e cheios de cortes pequenos de Haydée.

Haydée. Maldita. Dava a minha existência para que ela pudesse rasgá-la com a mesma facilidade apresentada nas duas semanas anteriores com os seus, sei lá, quinze falos. O que me irritava era a gravidade messiânica com a qual ela se sentava na poltrona oposta e fitava a sinuosidade de seu interlocutor do sexo oposto. As horas se passavam, e a gravidade assumia ares perversos, libidinosos, impassíveis, e tudo assim ficava até que ele levantasse, exasperado, e abrisse a porta, implorando pela sua saída.

A chave sempre estava com ela.

Naquele dia, entretanto, ela não permitiu que ele a tomasse com a sua entrada. Trancou a porta silenciosamente e, em vez de dirigir-se à poltrona após contemplar seu reflexo, permaneceu em frente da moldura, com os olhos baixos. Era extremamente fácil para Haydée se despir. Entretanto, não obstante sua dificuldade consciente em levantar o vestido, ele permaneceu na poltrona. Com os olhos pequenos e azuis bem abertos.

Os 49kg de Haydée eram assustadores em uma primeira instância: nessa constatação apresento uma fadiga extrema. O terror das formas de vidro, por outro lado, fomentava algo paradoxalmente delicado e lisérgico quando ela encostava os omoplatas ossudos na sílica, descendo vagarosamente enquanto suas mãos se deslocavam entre os seios miúdos e o ventre fundo na direção dos ralos pelos pubianos. Ao agachar, as pernas se abriam vagarosamente, e um gesto de entrega extremamente ensaiado pressionava o reflexo dos seios até que eles ficassem totalmente esmagados pelo contato impossível com uma alteridade inexistente.

O outro lado da sala crivou seus dedos no couro da poltrona velha e sem cor. Seu membro seguia o mesmo retesamento e, quando se viu tomado pela proximidade daquele corpo enxangue e tomado por forças demoníacas de ordem femicamente desconhecida, o reflexo de sua força teve como único alvo o pescoço fino e delicado em um gesto preciso e desesperado.

Duas mãos ao redor de um rosto formam um colar.

Ela baixou os olhos, esperando que o gesto contido e destituído de força aplicada abandonasse a sua potencialidade. Ele puxou-a, pelos ombros, para baixo, encaixando-se de forma brutal e completa.

Ela era o leão que devoraria a sua alma.

Como se sente agora, Haydée?

Os gestos repetitivos. Nas idas, nas vindas, tentava encontrar o seu olhar, sempre perdido, entretanto, por baixo das pálpebras que não deixavam contemplar seu torpor intolerável. Puxou os cabelos, forçou-a a encará-lo. Mas Haydée não conseguia olhar para fora, e tudo o que restava de suas forças se esvaía em uma procura por uma alteridade que não existia.

Sempre quis olhá-la como uma igual. Mas isso era impossível.

O fim previsível: um tremor convulsivo que, por mais que perguntasse, jamais tomaria parte. Por que se sente tão constrangido, I.? Eu sei que você vai deixá-la, eu sei… Mas por que essa ânsia de poder? Você jamais poderá tomar Haydée por completo.

Há algo nela que não é seu. E ela o encontrou nesse exato momento. E ele independe de alteridade alguma.

A alteridade era, naquele momento, uma coisa que não existia.

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