XVII. Quatro de ouros.

I had my chance coming
But now it’s too late

We go down, we go down

We go down, its the only way out

(Pal W.)

.

Os braços estão à frente do corpo. Entretanto, essa posição não é simples. Suporia ser resultante de algum grande esforço inútil realizado durante o sono. Mas, talvez, eu nem estivesse em uma situação adequada para me dar ao luxo de tal esforço mental.

Tão simples quanto a posição é o meu conforto interior nesse exato momento.

Eu dormi por apenas, acho, meia hora durante a noite inteira. Por maior que fosse a cama de casal – elemento determinante na composição instável do cômodo, percebo agora – estou comprimida na extremidade direita, sem travesseiro, com o pescoço impedido pelo rosto anguloso e ensimesmado. Consigo ter uma ideia vaga dos cachos louros em desalinho, mas visualizo com precisão as sobrancelhas grossas extraordinariamente próximas em um gesto de concentração no qual, na prática, sou impelida no extremo oposto do colchão.

Não fechei os olhos desde que ele tomou essa posição.

- Por que tanto receio em tirá-lo dessa posição? Você não estava se sentindo sufocada?

Certa vez, li um livro de Moravia. Creio que pelas mesmas razões que uma certa Adriana não ousaria mover um dedo em direção aos cachos de um estudante esquerdista frustrado.

Ah, Giacomo Diodati quebraria meu coração seis anos depois.

Aos poucos, vi o sol de inverno surgir pela janela. Tímido, pálido, distante. E eu, aqui, não consigo tirar essa distância de cima de mim. Ele pode nunca mais voltar nessa posição novamente. Mesmo que distante… Por quê? Esse mundo é insipidamente cruel. Não apresenta o tipo de crueldade saturada, que vem para encher o vazio de anos de clamor por vingança. Ou milagre?

Eu não consigo pregar os olhos.

A presença dele sempre me foi opressa. Desde a primeira vez que o vi, tentei todos os modos possíveis para poder encará-lo como a um igual. Entretanto, percebi, ao longo das tentativas, que a minha impostura não seria mais massiva que os meus mentirosos 49kg. Gelo azul-claro. Eu estou congelada pelo olhar fechado que se recusa a olhar para mim. Por que eu precisei beber? Não que eu me importasse com isso, mas foi algo absolutamente necessário, você deve entender.

Giacomo Diodati, você está quebrando o meu coração nesse exato momento.

Certa vez, disse a um dos inúmeros homens com os quais me relacionei, com todas as letras, que a nossa relação não teria futuro. Por que a ausência de futuro me constrange tanto agora? Giacomo Diodati pode estar sendo afligido por não ter mais para onde ir. Ah, eu não resisto, eu quero supor, eu tenho o direito de supor, ouviu? Eu posso olhar as seringas vazias de futuro espalhadas pelo chão do quarto, analisar os fatos, concatenar as hipóteses e dizer, com todo o domínio de mim mesma e dos outros: este é você agora! Mas o corpo com peso de um quilo de chumbo nunca me ouviria. Afinal, Giacomo Diodati é apenas uma abstração minha.

Giacomo Diodati, eu te amo até os ossos que procuro obsessivamente por onde deixar transparecerem.

Não há ossos. Só hematomas.

- 49kg. Apenas uma constatação.

Cale a boca.

Giacomo Diodati, você é culpado por esses hematomas. Não que tudo o que se passou seja determinante para dar cabo das noites com L. (L.?), mas, enfim, a sua presença aqui me forneceu o único laivo de culpa que pode ser utilizado para que o meu desconforto interior seja ao menos mais tolerável. Por favor, não tire mais a cabeça de mim, por favor, não tire mais a cabeça de cima de mim… Por favor, eu preciso ir agora…

Gesto repentino. Em seu sono, eis que ele descobre a extremidade esquerda da cama.

Aceite, Haydée. Aceite.

(…)

Vinte minutos depois, estava eu, o vestido puído de algodão e as meias cinza-chumbo no frio de Santana, olhando a Marginal do alto do viaduto.

- Bom dia, Haydée.

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