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Eu poderia estar perfeitamente ciente do que viria a acontecer. Poderia, mesmo. Poderia até mudar o rumo de algumas coisas, o que seria mais uma manobra perfeitamente natural. Ora, pois, já fiz isso tantas vezes. Com ela, até. Com Haydée. Não que eu, no decorrer desses vinte e três anos, acabasse por desenvolver uma espécie de compaixão ou pena pela errância pela qual sua vida foi gradativamente caracterizada: o fato é que persistir em determinada gama de arcanos acaba por desenvolver em mim uma espécie de… Tédio. Já falei que a minha função é tediosa? Pois bem. Creio que esse procedimento agrava de forma considerável essa deleitosa qualidade, e eu poderia muito bem agora, nesse exato momento, virar uma carta aqui e transformar a sua vida em um comercial de margarina. Mas me ocorre, a cada vez que cogito acerca de uma decisão desse tipo, o seguinte questionamento: por mais que eu possa mudar futuros, é possível mudar temperamentos? Ora, se a resposta for não – o que é muito provável – a culpa não é minha. E nunca será. Já ouviu falar acerca do livre-arbítrio cristão? Há pessoas que, por mais que se proponha outro jogo, continuarão nas mesmas cartas.
E você, Haydée, o que acha disso?
Ela me olha com suas amêndoas secas, indiferente.
- Tire outra carta.
E você acha que ele irá aparecer depois dela? Presunção. Presunção extrema. Posso abrir o deck e tirar todas as cartas favoráveis, – e você sabe que eu tenho o poder para isso! – mas creio que nada irá trazê-lo de volta. O incrível, Haydée, é o fato de você ter percebido só agora que o apartamento foi abandonado. Há semanas. Há semanas você não olha a pia, Haydée. Não olha para a louça que não pode ser mais lavada. O número total de copos é… Ímpar.
Ímpar. Assim como a presença humana aqui, agora, neste apartamento.
- Que tal tirar A Morte?
Nesse exato momento, o seu olhar adquiriu uma nuança extremamente sádica e malévola. Algo como um mau presságio. Haydée tem olhos turvos. Cinzentos. Nunca consegui adivinhar o que havia por trás deles em determinadas situações. Mas esse não seria o meu trabalho? Haydée dificultava muito as coisas. E eu não sou a primeira a apontar essa particularidade.
Soltei um sorriso sardônico. Que tal A Morte seguida dO Cavaleiro de Espadas?
Uma lágrima. Duas. Um turbilhão lento, silencioso.
Haydée, eu estou tão… Ao seu redor. Por que você não me deixa entrar? Eu posso resolver isso de uma forma tão rápida… Aquela trepada foi rápida? Eu nunca soube o que é um orgasmo. Como a coisa acontece?
Suas mãos contorceram-se debilmente. A debilidade, entretanto, toma um corpo assustador quando transpira pelos poros daquele frangalho humano. Nunca vi a sua voz adquirir um matiz tão… Histérico.
- Chega! Eu não agüento mais esse jogo estúpido! Eu quero que você desapareça… Que você suma… Deve ser por isso que ele nunca mais apareceu por aqui! – seu rosto, desde então, adquiria uma tonalidade desesperadoramente vermelha. – Eu não agüento mais, eu quero rachar a minha cabeça em mil só de cogitar a respeito da sua existência. Se for preciso, eu ateio fogo nesse segundo andar agora. Agora. Agora… Onde está o isqueiro? Onde?
Não havia isqueiros. Ele havia levado tudo, assim como as seringas.
- Eu já sei como eu vou solucionar isso tudo… Eu vou queimar esse baralho! Esse apanhado de cartas malditas… Me dá! Me dá agora que tudo isso vai virar pó e cinzas em dois segundos…
Haydée sempre me fez sofrer. Me faz sofrer agora, chorando compulsivamente aninhada em meus joelhos enquanto as cartas estão espalhadas pelo chão. Eu tenho pena dela. Ora, seu choro nada mais é que um soluço inexpressivo e sem efeito. Por que eu me prolongo nesse martírio inútil? Minha vida é surgir e desaparecer. Por que queimá-lo? Ele talvez não esteja no deck. E a razão para isso é, talvez, extremamente simples. Mas a fadiga me impede de explicar qualquer coisa mais nesse sentido, meu anjo. Eu preciso ir embora, mas não antes de recolher os arcanos…
Boa noite, Haydée.
E eu não vou recolher a carta que ficou atrás da estante de livros.
Ah… A culpa, no fundo, é toda minha.

20 março, 2010 no 2:41 am
Parece que aos poucos encontramos um narrador que andava perdido…toma forma. Continue. Por favor.
26 março, 2010 no 8:39 pm
sensacional.
24 maio, 2010 no 3:07 am
Coninue no bom caminho.