Noites Brancas.

Abril 10, 2008

Suas ankle boots bateram em um ruído surdo e seco no último degrau da escada. Deu mais três passinhos em direção à sala de vídeo, detendo-se por um momento ante a inesperada figura do professor. Sentiu-se corada, Lolita, os cachos não ajudando muito. Perguntou a si mesma se a paixão pelo conhecimento não era fruto da paixão por aquele homem - ou, muito provavelmente, se o caso fosse inverso. Imagine, ela, sempre fascinada pela Rus Kievana, pela terra dos tzares e todo lo más, como poderia? Virou-se e fingiu ir beber água.

Cinco minutos. Ouve-se, novamente, o ruído das ankle boots na escada. O filme do Tarkóvski já havia começado. Pediu licença a ele - figura alta, esquálida, tímida e ligeiramente desajeitada - com a fala corada e a vergonha com a vontade de fugir. Enfiou-se em qualquer lugar da penumbra. O tempo passava e Marfa, nua e canhestra, dizia a Andrei Rubliov. Seus olhos desviaram-se um pouco para as pernas compridas que estavam mais ao lado. Percorreu a linha do corpo, com olhos engazeados que, pela graça de Deus não podiam ser vistos com clareza dentro da escuridão.

“Vocês fazem coisas pecaminosas aos olhos de Deus. Vocês não sabem o que é o amor… O que vocês chamam de amor não passa do amor das feras, de devassidão e carnalidades.”

“Mas há tipos diferentes de amor? Pensei que amor fosse uma coisa só…”

O beijo. Rubliov se esquiva no pegar de suas coisas e sai para fora da sala, sutil e ligeiramente - não sem deixar de sussurrar ao professor. Ela precisava avisar que não poderia ficar até mais tarde, já que não conseguiria pegar o ônibus se o fizesse.

Pernas se encolheram junto da cadeira universitária.

Ankle boots foram, aos poucos, batendo rápidas e cada vez mais distantes pelo corredor da sala 270.

4 Respostas para “Noites Brancas.”

  1. Bruna disse:

    eu acredito em vários tipos de amor.

  2. Carmim disse:

    Acredito que todos os dias redescobrimos o amor, que não é um sentimento estanque, e por isso nos permite, e nos dá tanto!

    Um beijo.

  3. thadeu disse:

    imaginei a cena, para mim, confesso, foi familiar.

    excelente! mesmo…casa comigo?

  4. Bill disse:

    Karambola!!!

    Ganhei meu dia x)
    Hum… Tu consegue (sempre) manter uma linha calma em tudo, mas aquela calma de uma caos completo, um silêncio morrendo de vontade de gritar…

    Existe um amor e varias formas de amar…

    Mas que primor de post…Claro que o título, me lembrou o delicioso livro do Dostoiévski, embora tenha me lembrado mais por sua causa, as linhas que tu nos faz tão ludicamente seguir até o outro lado do mundo.

    Bravo dona moça \o/

    Beijo e doce fim de semana pra tu.

    :***

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